21º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO C, 25 de agosto de 2019

21º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO C, 25 de agosto de 2019

23/08/2019 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

“FAZEI TODO ESFORÇO POSSÍVEL PARA ENTRAR PELA PORTA ESTREITA”

Imagem: padrepauloricardo.org

 

Leituras

         Isaias 66,18-21. Esses enviados anunciarão às nações a minha glória.

         Salmo 116/1171-2. Cantai louvores ao Senhor, todas as gentes.

         Hebreus 12,5-7.11-13. Meu filho não desprezes a educação do Senhor.

         Lucas 13,22-30. Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?

 

1- PONTO DE PARTIDA

Domingo da porta estreita. Com Cristo, somos peregrinos para Jerusalém. No caminho, que é de cruz e ascensão (Lucas 9,51), fortalecemo-nos com sua Palavra de salvação e com o seu Pão fracionado. Não basta pertencer ao povo de Israel, não basta “comer e beber com Cristo”, é preciso deixar-nos educar por Deus, entrar pela porta estreita e praticar a justiça. O Reino, para além das fronteiras, continua como proposta aberta a todas as nações e culturas, possibilitando que últimos se tornem primeiros. Nessa perspectiva, compreende-se o papel dos leigos e das leigas, especialmente dos catequistas, mensageiros e construtores de um mundo novo de paz e alegria.

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Primeira leitura – Isaias 66,18-21. O Dêutero-Isaias (Isaias 40-55) apresentara a volta do exílio babilônico (586-538 antes de Cristo) como um novo êxodo, e a reconstrução do país como fácil, trazendo tempos gloriosos para a comunidade judaica. Mas a realidade foi outra: enfrentou dias difíceis.

Neste contexto, de reconstrução da nação, o Trito-Isaias (Isaias 56-66) – este conjunto de oráculos de um ou mais autores pós-exílicos – vai apresentar a mesma esperança, mas em outros termos.

Segundo este profeta, só o homem que se deixar guiar pela justiça, reflexo da presença de Deus no meio do povo, conseguirá superar os obstáculos da reconstrução com muita serenidade.

Assim, nos tempos novos que virão, Jerusalém será glorificada e até mesmo os outros povos da terra estarão presentes para participar de seu triunfo. O próprio Deus “reunirá” em Jerusalém “todas as nações” (versículo 18) e a Sua Palavra será “anunciada” a todos os “confins da terra (versículo 19). Os povos estrangeiros serão associados à “oblação” sacerdotal (típica de Israel) e poderão entrar plenamente no santuário do Senhor (versículos 20-21).

Pode-se perceber claramente que a salvação é universal. Deus vem ao encontro da humanidade para “reunir todas as nações”, oferecendo a todos os povos a Sua salvação. Para o texto de Isaías, a salvação é um dom. Nasce da iniciativa de Deus. É ele mesmo que vem ao nosso encontro, pois é próprio de Deus amar, salvar, resgatar. Outro aspecto salientado é que o mundo inteiro está incluído nessa salvação. Ela não é privilégio de um povo, não é exclusividade de Israel. “Todos verão a salvação que vem de Deus” (Lucas 3,6).

Este é o tema específico de nosso texto de hoje (66,18-21) que se insere perfeitamente na lógica do capítulo, estruturado em torno do tema da visão e da glória de Deus. Texto que poderia levar o título de “o reconhecimento universal da comunidade de Jerusalém”.

As nações serão avisadas do triunfo de Jerusalém: aqueles que escaparem do juízo escatológico serão assinalados e enviados aos seus conterrâneos. E o autor cita alguns países para dar uma idéia da universalidade do empreendimento.

Tarsis corresponde a Tartassos, na Espanha; Fut é a Somália e Lud a Líbia; Meshek (Mosoc) e Tubal são populações da Ásia Menor, enquanto Ros é desconhecido; finalmente, Javã indica as ilhas jônicas e, em geral a Grécia (versículo 19).

Na seqüência, o texto conta, no versículo 20, que os convidados das nações trarão consigo os judeus da Diáspora, como oferta ritual a Deus. Será uma reunião completa.

Destes israelitas que retornam à pátria serão escolhidos alguns para sacerdotes e levitas (versículo 21). Muitos autores acreditam – embora aqui haja uma longa discussão – que a referência ao sacerdócio não diz respeito aos pagãos, ;pois o contexto exige exclusivamente para os israelitas.

Salmo responsorial – 116/117,1-2. É o menor de todos os salmos é um hino de louvor. Esse tipo de salmo celebra algumas ações significativas de Javé na vida e na história do povo de Deus. a comunidade israelita  reconhece Deus como Senhor do mundo, e por isso sente a necessidade de alargar a “todos os povos” o convite ao “louvor” (versículo 1). Com efeito, é firme “a sua misericórdia” para com todos, e a sua “fidelidade” permanece para sempre (versículo 2).

O rosto de Deus neste salmo. Javé é citado no começo (versículo 1a) e no fim do salmo (2b), e é apresentado como o aliado de Israel. Ele se comprometeu com amor fiel, firme e perpétuo. Aceitando o convite ao louvor feito por Israel, os povos e nações descobrem o rosto de Deus e farão também eles a experiência de um Deus que ama fielmente e para sempre. Não chegarão a isso porque o louvor de Israel seja perfeito, ou porque o povo de Deus seja melhor do que os outros. Descobrirão Deus naquilo que Israel confessa como fruto de experiência histórica: nosso caminha conosco, é nosso aliado, aquele que nos ama com fidelidade extrema. Aqui está bem claro o rosto de Deus: amor, fiel, aliado para sempre.

Jesus, no Evangelho de João, é apresentado exatamente com as características do deus do salmo: “A Lei foi dada por Moisés, mas o amor e a fidelidade vieram através de Jesus Cristo” (João 1,17); “Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo aquele que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna” (João 3,16); “antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado a sua hora… ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”(João 13,1). Além disso, chama a atenção o modo como Jesus agiu em relação aos pagãos (João 4,4-42; 12,20-22; Mateus 8,5-13; 15,21-28), e a forma como os pagãos responderam ao apelo de Jesus.

 

Segunda leitura – Hebreus 12,5-7.11-13. A carta recomendara de muitas maneiras a fé, pela qual membros da Igreja se unem à cabeça, Jesus Cristo. Este capítulo admoesta que a fé deve ser completada e justificada com as boas obras. Depois de se proporem, como exemplo de paciência, os justos do Antigo Testamento e, em especial, Jesus (versículos 1-3), os fiéis são convidados a suportar as provações, permitidas por Deus Pai para proveito de seus filhos (versículos 4-7). Só assim nos comportamos como filhos e filhas d’Ele.

Nos versículos 5s o autor sagrado, para animar os leitores à perseverança. Trata-se de não menosprezar a correção (paidéia) do Senhor; “Paidéia” exprime disciplina, instrução e educação moral mediante correção e até castigo. Nem se indignar-se ou ressentir-se quando Deus censura ou castiga para emendar, porque o Senhor corrige os que ama e açoita todo aquele que reconhece como seu filho (Provérbios 3,11s; Apocalipse 3,19). Quem tem tendência para o mal, precisa de freio. Tal o mal, tal o homem que o comete; a razão do castigo é evitar que se caia nele; como a natureza humana está inclinada para o mal (Gênesis 8,21), Deus a castiga para poupar-lhe tal desdita (cf. Jeremias 31,18).

Deus castiga para te livrar do mal e da morte eterna (Salmo 117,18), para te salvar. Quem não sofre, não é seu filho e é sinal quase certo de condenação.

Versículo 7. Não se negligencie a graça divina do castigo. Ninguém se canse de corrigir-se em conformidade com a graça divina, ninguém recuse sofrer, antes, persevere com paciência até o fim.  Nesta disciplina cristã todos são como alunos estagiários, em experiência, como na milícia. Com efeito, qual é o filho a quem seu pai não corrige (12,7)? A intenção de Deus, quando faz sofrer e castiga, é educar, formar, levar a crescer. Deus se comporta como um pai, buscando o bem e a educação dos filhos, mesmo com castigos

O versículo 11 afirma que tais provações/castigos humanamente não são fáceis: afligem, perturbam, causam amargura. Todavia, se forem aceitos com fé e paciência, trazem felicidade, paz, forças para superar futuros dissabores. O Apóstolo Paulo constatou a tristeza que suas correções produziram em Corinto; contudo não se arrependeu de fazê-los sofrer: tal correção deu bom efeito – arrependimento e salvação (2Coríntios 7,8-10). O castigo, entendido como provação, é medicinal; o remédio ao ser tomado é amargo, desagradável, mas logo após torna-se fonte de bem-estar. Assim a correção: é pesada no momento, embora depois produza bons resultados, frutos de justiça (= santidade) e de paz, união com Deus Salvador e síntese de todas as virtudes.

Se nos versículos 12-13 se falara de tolerar as provações e castigos, agora se trata de evitar o pecado, em especial o de omissão, é duplo – deixar de fazer o bem e – não aceitar as tribulações e adversidades. Para ilustrar o autor recorre-se a Isaias 35,3. “Levantai as vossas mãos cansadas” para com reta intenção, praticar o que agrada a Deus. “Mãos abaixadas” ou vacilantes são sinal de omissão, fraqueza e desalento; resultam em penúria e indigência (Provérbios 10,4; Eclesiástico 25,32; 2Reis 2,7; 4,1). Enquanto Moisés andava de mãos erguidas, Israel vencia; baixando-as, prevaleciam os Amalecitas (Êxodo 17,11). As mãos eram próprias para o pugilato e lançamentos, os joelhos, para as corridas. “Levantai vossos joelhos trêmulos”, fracos ou paralisados. Se todo o peso recair sobre os joelhos, tornam-se trêmulos, frouxos, sem forças para agüentar; assim no campo moral (cf. Eclesiástico 25,32; Jó 4,3-4; Isaias 35,3). Erguei as mãos para não cair na acomodação. Fortalecei os joelhos para não tropeçar de fraqueza. É metáfora corrente no atletismo. É urgente, pois, deixar a moleza, que acomoda, e preparar-se com força e alegria para suportar com heroísmo as tribulações.

Desaprovado o pecado de omissão (versículo 12), agora é a vez do pecado de transgressão, que é visto como um caminho sinuoso. Por isso exorta-se a caminhar pelo caminho reto (versículo 13; Provérbios 4,26), evitando os extremos, não se desviando da reta intenção e do fim adequado. Assim como os pés carregam o corpo, assim as paixões conduzem a mente; em conseqüência, controla-se o afeto, o qual condiciona espiritualmente todo o corpo. Tudo isso é possível com o auxílio divino; só Ele é capaz de retificar nossa conduta (Salmo 16,5). “Passos” (trochias) aqui significa o vestígio das rodas do carro ou dos pés de quem caminha (pegadas).

A correção devolve (apodídõsin), aos que a aceitam, a paz interior com Deus, fonte de serenidade e paz externa. A tribulação, permitida e adaptada pela Providência divina, concorre para o a pessoa humana se desapegue desse mundo terreno e viva tranqüilo como quem vive num mundo superior e aspira pelos valores eternos.

Evangelho – Lucas 13,22-30. O Evangelho começa dizendo que Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém, isto é, para a Sua Páscoa de morte e ressurreição. A atitude de Jesus de dirigir sua palavra não apenas às grandes cidades, mas também a vilarejos pobres e humildes (versículo 22), indica a oferta de salvação a todo o Israel. A pergunta inútil (versículo 23) endereçada a Jesus por alguém de tendência rabínica, visto que os rabinos estavam bastante preocupados com esta questão e não podiam aceitar que pagãos alcançassem a felicidade eterna, pois julgavam os detentores dela como conhecedores e observantes fiéis da Lei de Moisés. Lucas quando narra a pessoa que dirige a pergunta a Jesus “Se são poucos os que se salvam” (versículo 23), tinha em mente não só os ouvintes de Jesus, mas também os gregos, isto é, os povos pagãos. Jesus não responde esta pergunta teórica, misteriosa, impossível de se resolver, do número dos eleitos, mas parte para um apelo prático apresentando as condições para a salvação, portanto não interessa saber quantos se salvam, mas o que é necessário fazer para pertencer ao número deles.

A porta estreita (versículo 24). Há quem pense que o Mestre Se refira à porta dos muros da cidade, através da qual passavam as mercadorias ou os animais, estreita porque permitia melhor a contagem das mercadorias e dos tributos. Portanto, Jesus convida os discípulos a um discernimento atento sobre a vida deles à luz das suas relações com o Senhor (tal como a parábola do dono da casa o ilustra, nos versículos 25-28).

Os festins entre os judeus eram celebrados à noite dentro de salas muito iluminadas em esplêndido palácio (cf. Salmo 44/45). Daqui entendemos por que a vida bem-aventurada depois da morte é comparada a um banquete messiânico onde há muita festa e muita luz (cf. Isaias 5,12; 25,6; Lucas 14,15-24; 22,29-30; Mateus 22,2-10; 26,29; Marcos 14,25), mas cuja porta é estreita. Muita gente tentará entrar nele e participar dele e como a porta é estreita é preciso apressar-se e esforçar-se para entrar. O verbo usado “esforçar-se” (agônízesthai do versículo 24) inclui a idéia de luta, combate, peleja, competição tirada do contexto esportivo lúdico (cf. 1Timóteo 6,12; 1coríntios 9,25; 2Timóteo 4,7). Exige-se, portanto, uma conversão e penitência urgentes. É importante saber que a salvação não é muito fácil e o decisivo é perseverar neste esforço de conversão, sem protelar para a última hora a constante diligência exigida, porque diz o texto grego: “depois que o dono da casa se tiver levantado e tiver fechado a porta e vós, do lado de fora, começardes a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta’, ele responderá: ‘Não sei de onde sois’ ” (versículo 25).

O consolo é que a porta, embora estreita, vai permanecer aberta durante todo o tempo da salvação, contudo, uma vez fechada, será em vão aos retardatários bater nela. A mensagem que a parábola nos quer apresentar é esta: o dono da casa, que, reclinado, acolhe os convivas, depois de um tempo certo, levanta-se, fecha a porta e não a abre mais para os retardatários, isto é, Deus, no seu plano, põe, fim ao tempo útil para a conversão (cf. Mateus 25,10-12). De nada lhes adiantará aduzir títulos de pertencerem ao povo eleito, de serem fiéis à Lei de Moisés, de serem compatriotas e familiares de Jesus, de terem comido e bebido com Ele (versículo 26), como aconteceu com alguns fariseus durante sua vida terrena. Com razão será aplicada a sentença: “Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça” (versículo 27; cf. Salmo 6,8; Mateus 7,22-23). Portanto, na porta da sala do banquete haverá uma seleção, cujo critério não consiste em ser judeu ou pagão, em separar os judeus dos pagãos, pois sentados à mesa estarão os patriarcas, profetas e pagãos (versículos 28-29), mas na atitude da aceitação de Cristo, de contínua conversão e prática das boas obras. O motivo de tanta dor, cólera, pavor e remorso de consciência (“pranto e ranger de dentes”: versículo 28) é ver seus antepassados, que, também como eles, pertenceram ao povo escolhido, juntamente com os pagãos vindos de todos os pontos da terra (cf. Isaias 2,2-4; 25,6-8; 49,12; Miquéias 4,1-3), que eles desprezaram, sentados à mesa do banquete do reino (cf. Mateus 8,11).

Esta parábola aplica-se em primeiro lugar aos judeus, que em de se preocuparem com o número dos eleitos, deveriam se converter à mensagem de Jesus e serem contados entre os eleitos. O simples fato de pertencerem à raça de Abraão, de serem compatriotas de Jesus ou de terem praticado um ritualismo externo, não lhes garantirá automaticamente a salvação.

Finalmente, o cristão tem muito a ver com esta advertência, pois Jesus dá uma resposta cristã a uma pergunta rabínica, visto que nos que nos quer ensinar que não devemos nos preocupar em saber se somos ou não predestinados, mas em nos esforçar para imitá-lo no caminho de Jerusalém, onde o esperam a morte e a ressurreição.

3- DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

Jesus prossegue o Seu caminho para Jerusalém. Na observação de Lucas, essa é uma das faces mais marcantes de Jesus: ser um Messias peregrino e missionário. À preocupação de alguns grupos – chamados de apocalípticos, porque anunciavam o final dos tempos – de saber o número dos eleitos e as chances que nós temos, Jesus opõe uma linha de pensamento diametralmente oposta: não importa quantos poderão salvar-se, mas trilhar o próprio caminho da salvação. A preocupação essencial é prosseguir na radicalidade do caminho do discipulado, aceitando as dificuldades e os obstáculos como o próprio meio de realizar este caminho. Sem este mergulho no caminho dos discípulos e da discípula de Jesus, pode mos correr o risco de não sermos mais reconhecidos ou considerados como pertencentes ao seu grupo.

O convite ao Reino não é monopólio ou privilégio de um grupo, mas a cada pessoa é oferecida a possibilidade de entrar no Reino e sentar-se à mesa do banquete. As comunidades cristãs são chamadas a viver em profundidade esta universalidade da salvação, despindo-se de todo pré-conceito e discriminação e tornando-se o lugar da mesa farta, onde todos possam fazer parte.

O ensinamento de Jesus leva à conversão e ao empenho de viver a caridade, a fim de entrar pela porta estreita. Com uma parábola (13,25-29) mostra o Reino de Deus como um grande banquete, oferecido a todos os povos. Só não participa da festa do Reino quem se fecha na auto-suficiência e nos presumidos privilégios étnicos, culturais ou religiosos.

O grande escândalo para o Cristianismo nascente foi a rejeição de Israel a Jesus e à Boa-Notícia do Reino. Muitos se endureceram numa prática mesquinha, imposta por um sistema religioso legalista. Situação semelhante já havia sido vivida em Israel, alguns séculos antes, no período do retorno do exílio babilônico. A reconstrução da nação se baseou em um “liturgismo” legalista e excludente. O Templo de Jerusalém, a Lei e a raça pura de Israel se tornaram critérios basilares do Judaismo. O profeta Isaias sonha com uma comunidade de inclusão. Nela, os pobres, os estrangeiros e os dispersos de Israel serão convertidos. Todas as nações, “homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul” virão a Jerusalém como oferenda ao Senhor, “tomarão lugar à mesa no Reino de Deus”. Ninguém é excluído, nem Israel, mas todos devem curvar-se ao único critério: a prática da justiça do Reino. Cristo, “pelo sacrifício da cruz conquistou para si um povo novo”, pois o mundo da separação e da inimizade foi definitivamente  destruído e a Igreja, saciada pela Palavra e pela Eucaristia, constitui um povo a caminho da unidade. Assim, na lógica do reino, últimos e excluídos tornam-se os primeiros herdeiros da promessa.

Há muitos irmãos e irmãs que foram postos à margem, tornaram-se últimos, foram excluídos por critérios sociais, econômicos, culturais, étnicos, de gênero e até religiosos. A Igreja Católica se propõe a tarefa de uma nova evangelização. E todos os vocacionados, leigos e leigas, especialmente os catequistas, tornam-se protagonistas nessa missão de anunciar uma notícia alegre ao mundo, para que todos os últimos de tornem primeiros, segundo o coração de Deus. Assim, uma nova convivência humana e cósmica, como habitantes de uma casa comum reconciliada, “todas as gentes e povos todos podem cantar louvores ao Senhor”.

A celebração litúrgica, onde todos, sem discriminação de classe ou de raça, podem achegar-se e sentar-se à mesa da Palavra e da Eucaristia, é um sinal eloqüente desta universalidade da salvação.

4- A PALAVRA SE FEZ CSRNE E SE FAZ CELEBRAÇÃO

Praticar a justiça do Reino

O critério de pertença ao Reino é a prática da justiça. A Divina Liturgia deste Domingo nos faz a pergunta sobre o verdadeiro critério de pertença ao Reino. O que está em foco é, fundamentalmente, a prática da justiça. Não é essencial pertencer a Israel por laços de sangue, nem ser próximo de Jesus por parentesco, nem mesmo ser do seu grupo. O conhecimento de Jesus, a intimidade e a amizade com Ele acontecem para aqueles que entram pela porta estreita, que produzem frutos de justiça, que se deixam educar por aquilo que Ele ensina, pelas exigências de Sua Palavra. A proposta celebrativa deste Domingo nos apresenta um tom penitencial e pedagógico, a fim de que possamos rever a nossa caminhada, no seguimento de Jesus na perspectiva da nossa infidelidade em praticar a justiça do Reino. A comunidade litúrgica abre o seu coração e os seus lábios para reconhecer: “Tende compaixão de nós, Senhor. Inclinai o vosso ouvido e escutai-nos”. Depois da comunhão, já alimentados pelo pão do Reino, voltamos a suplicar: “Transformai-nos para que em tudo possamos agradar-vos”. O nosso Deus é um Pai que, pedagogicamente, guia-nos no caminho. Ele nos corrige e nos educa, pois nos trata como filhos (cf. Hebreus 12,7).

6- LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

Nesta celebração de hoje, na Oração Eucarística, vamos dar graças ao Pai pelo banquete que o Filho, o Cordeiro Imolado nos oferece gratuitamente. Vamos repartir entre nós o Pão Consagrado, o Pão partido para um mundo melhor, memória viva do Corpo do Senhor. Que esta comunhão firme nossa amizade com Ele e com todas as pessoas e criaturas do universo e nos fortaleça na busca de Seu reino de paz e de justiça.

A Igreja é chamada a prestar menor atenção aos “muitos”, que já estão ou não estão presentes, e uma atenção maior a “todos”, vivam eles perto ou longe, que são chamados para o banquete.

  1. ORIENTAÇÕES GERAIS

  1. Acolher de maneira fraterna as pessoas que vão chegando para a celebração.

  1. Dia 27 de agosto, celebramos a memória de santa Mônica, exemplo de mãe, que, com muita fé, orou durante trinta anos pela conversão do filho, Santo Agostinho.

  1. Dia 28 de agosto, celebramos a memória de Santo Agostinho, Bispo e Doutor da Igreja. Agostinho converte-se ao Cristianismo graças às pregações de Santo Ambrósio de Milão, após uma juventude conturbada deixando numerosos e significativos escritos para a fé católica.

  1. Dia 29 de agosto, a Igreja faz memória do martírio de São João Batista. Precursor de Jesus, anunciou sua vinda e foi martirizado por denúncias que desagradaram o rei Herodes, sua amante Herodiades, sua filha e outros poderosos.

8- MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos cantar a liturgia e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com cada domingo do Tempo Comum, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são do 21º Domingo do Tempo Comum, é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado. Jamais os cantos devem ser escolhidos para satisfazer o ego de um grupo ou de um movimento ou de uma pastoral. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

Dar uma passada nos cantos (refrão e uma estrofe), seguido de um momento de silêncio e oração pessoal, ajuda a criar um clima alegre e orante para a celebração. É fundamental uns momentos de silêncio antes da celebração. O repertório bem ensaiado previamente e com o povo, minutos antes da celebração, irá colaborar para a participação de todos.

  1. Canto de abertura. “Clamo por vós o dia inteiro”; oração confiante. “Vem escutar-me, ó Senhor”, CD: Liturgia VII, mesma melodia da faixa1.

Como Igreja peregrina, somos chamados a praticar a justiça do Reino de Deus. Nessa perspectiva, a Igreja oferece outra opção para o canto de abertura. “Ó Pai, somos nós o povo eleito que Cristo veio reunir. Enfocar bem a estrofe: “Pra ser sinal de salvação, o Senhor nos enviou”, CD: Cantos de Abertura e Comunhão, melodia da faixa 1.

  1. Hino de louvor. “Glória a Deus nas alturas…” Vejam o CD Tríduo Pascal I e II e também no CD Festas Litúrgicas I.

O Hino de Louvor é chamado de “doxologia maior” em contraposição com a “doxologia menor” que é o “Glória ao Pai…”. Trata-se de um hino antiqüíssimo, iniciando com o louvor dos anjos na noite do Natal do Senhor (Lucas 2,14), desenvolveu-se antigamente no Oriente, como homenagem a Jesus Cristo. Não constitui uma aclamação à Santíssima Trindade, mas um hino Cristológico, isto é, os louvores se concentram no Filho Jesus. É um hino pelo qual, a Igreja reunida no Espírito Santo entoa louvores ao Pai e dirige súplicas ao Filho, Cordeiro e Mediador.

 

  1. Salmo responsorial 116/117. Deus é fiel para sempre. “Proclamai o Evangelho a toda criatura!”, CD: Liturgia XI, melodia igual à faixa 21.

Para que cumpra sua função litúrgica, não pode ser reduzido a simples leitura. É parte constitutiva da liturgia da Palavra e tem exigências musicais, litúrgicas e pastorais.

  1. Aclamação ao Evangelho. “Eles virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul” (Lucas 13,29). “Aleluia…Toda a gente do oriente e do ocidente vem sentar-se à mesa do reino de Deus”, CD: Liturgia XII, melodia da faixa 1. O canto de aclamação ao evangelho acompanha os versos que estão no Lecionário Dominical.

Esta aclamação é quase sempre “AELUIA” (menos nas missas da Quaresma por seu um tempo penitencial). É uma aclamação pascal a Cristo que é o Verbo de Deus. É um vibrante viva Deus. Os versos que acompanham o refrão devem ser tirados do Lecionário.

 

  1. Apresentação dos dons. Momento de partilha para com as necessidades do culto e da Igreja. Devemos ser oferendas com as nossas oferendas para socorrer os necessitados. “As mesmas mãos que plantaram a semente aqui estão”, CD: Liturgia VII, melodia da faixa 4.

  1. Canto de comunhão. “E assim há últimos que serão primeiros e primeiros que serão últimos”, (Lucas 13,30). “A justiça do Reino é assim”, CD: Liturgia XI melodia da faixa 23, exceto o refrão.

O Evangelho nos mostra que Jesus é a única verdade que devemos buscar, para que possamos tomar parte no Banquete do Reino de Deus. A Igreja oferece outra opção para o canto de comunhão: “Eis, meu povo, o banquete que preparei para ti”, CD: Cantos de Abertura e Comunhão, melodia da faixa 18.

O canto de comunhão deve retomar o sentido do Evangelho do dia. Esta é a sua função ministerial. Na realidade, aquilo que se proclama no Evangelho nos é dado na Eucaristia, ou seja: é o Evangelho que nos dá o “tom” com o qual o Cristo se dirige a nós em cada celebração eucarística reforçando estes conteúdos bíblico-litúrgicos, garantindo ainda mais a unidade entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia.

9- ESPAÇO CELEBRATIVO

  1. A mesa da Palavra receba também destaque semelhante à mesa eucarística: toalhas, cor litúrgica (verde). Os enfeites não podem ofuscar as duas mesas principais: mesa da Palavra e o altar.

  1. O Altar, portanto, não é em absoluto um móvel, mas sim, um símbolo. E por ser símbolo, deve ocupar um espaço que lhe seja próprio, ou seja, que nenhum outro objeto esteja muito próximo do Altar, diminuindo sua importância. Assim, evitem-se pedestais com flores e grandes arranjos muito próximos do Altar, que podem ser obstáculos à visibilidade e distrair a atenção dos símbolos do pão e do vinho que estão sobre ele. Convém lembrar que as flores devem destacar o Altar e não encobri-lo. Mesmo as velas, preferentemente o Círio Pascal, símbolo da luz do Cristo ressuscitado, devem estar em pedestais separados do Altar.

  1. Desde modo, durante todo o tempo da Liturgia da Palavra, o Altar permanece sem nada em cima: nem livros, microfones ou galhetas. O Altar recebe o livro (missal) e os vasos sagrados, o pão e o vinho, que são trazidos na procissão das oferendas, para serem apresentados pelo presidente da celebração (cf. IGMR, n. 100).

  1. AÇÃO RITUAL

A equipe de acolhida, incluindo quem preside, recebe as pessoas que vão chegando de maneira afetuosa, saudando-as cordialmente.

Valorizar a presença e a participação dos(as) catequistas nos vários momentos da celebração, sobretudo na liturgia da Palavra.

Ritos Iniciais

  1. Onde for possível, a celebração pode ser iniciada do lado de fora da Igreja. Após a saudação inicial e uma breve monição, inserindo a assembléia no sentido litúrgico da celebração, o presidente convida a todos a se colocarem a caminho, silenciosamente, rumo à igreja, que estará com partes das portas fechadas, recordando a porta estreita do Evangelho.

  1. A celebração tem início com a reunião da comunidade cristã (IGMR 27.47). O canto de abertura começa tendo em conta essa realidade eclesial, e vai introduzir a assembléia no Mistério celebrado.

  1. Neste Domingo é muito oportuno a saudação da letra “d”, Romanos 15,13:

 

O Deus da esperança, que nos cumula de toda a alegria e paz em nossa fé, pela ação do Espírito Santo, esteja convosco.

  1. O sentido litúrgico, após a saudação do presidente, pode ser feito por quem preside, pelo diácono ou um ministro devidamente preparado com palavras semelhantes às que seguem:

Domingo da porta estreita. Recebemos do Senhor o conselho de nos esforçarmos para entrar no Reino, praticando a justiça do seu Evangelho. Celebramos a Páscoa de Jesus Cristo que se manifesta em todas as pessoas e grupos que lutam pela justiça no mundo.

  1. Em seguida fazer a “recordação da vida” trazendo os fatos que são as manifestações da Páscoa do Senhor na vida da comunidade, do país e do mundo, mas de forma orante e não como noticiário. Deve ter presente a realidade dos(das) catequistas.

  1. Sugerimos que a motivação para o Ato Penitencial seja a fórmula I da página 390 do Missal Romano levando em conta que somente Cristo tem palavras de vida eterna.

O Senhor Jesus, que nos convida à mesa da Palavra e da Eucaristia, nos chama à conversão.

  1. Após uns momentos de silêncio rezar ou cantar o Ato Penitencial da formula 5, para os domingos do Tempo Comum na página 394 do Missal Romano, que destaca Cristo como plenitude da verdade e da graça.

  1. Cada Domingo do Tempo Comum é Páscoa semanal. Cantar de maneira festiva o Hino de louvor (glória).

  1. A Oração do Dia deste Domingo apresenta bem a questão principal da liturgia, quando nos conclama a reconhecer onde encontrar a “verdadeira alegria”, ou seja, onde encontrar nosso terreno sólido, nossa segurança e salvação.

Rito da Palavra

  1. Os leitores devem ser bem preparados para a proclamação das leituras. Seria uma boa ocasião de ter os catequistas como leitores, nessa celebração

  1. A homilia ter um tom de conversa familiar a que ela se propõe. Sejam evitados tons moralistas.

  1. No momento da Profissão de Fé, o grupo de catequistas renove juntamente com toda a comunidade o seu compromisso na tarefa evangelizadora. Fazer a Profissão de Fé diante da Bíblia ou do Evangeliário abertos com velas acesas.

 

Rito da Eucaristia

  1. Valorizar nesse dia a procissão das oferendas levadas pelos próprios fiéis, pois “embora os fiéis já não tragam de casa, como outrora, o pão e o vinho destinados à liturgia, o rito de levá-los ao altar conserva a mesma força e significado espiritual” (IGMR, nº 73).

  1. Neste domingo por ser Dia do Catequista, convidar os catequistas para levar o pão e o vinho até o Altar.

  1. Na Oração sobre o pão e o vinho destaca que o sacrifício de Cristo através da Cruz, trouxe paz e unidade para o povo.

  1. Se for escolhida as Orações Eucarísticas I, II e III, quer admitem troca de Prefácio, sugerimos o Prefácio para os Domingos do Tempo Comum VIII, o qual destaca qual a meta que as pessoas são chamadas: a participar do vínculo de amor da Trindade, ou seja, na própria vida de Deus.

 

  1. A comunhão em duas espécies manifestará o caráter de banquete escatológico do Reino (Lucas 13,29-30). Também De acordo com as orientações em vigor, a comunhão pode ser sob as duas espécies para toda a assembléia. “A comunhão realiza mais plenamente o seu aspecto de sinal quando sob as duas espécies. Sob essa forma se manifesta mais perfeitamente o sinal do banquete eucarístico e se exprime de modo mais claro a vontade divina de realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor, assim como a relação entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico no Reino do Pai” (IGMR, nº 240). Quando bem orientada, a comunidade aprende fácil esse rito que é resposta obediente ao mandamento do Senhor “tomai e bebei”.

 

Ritos Finais

  1. A Oração depois da comunhão destaca que a Eucaristia como sacramento do amor, nos transforma para agradar a Deus

  1. Os avisos da comunidade devem reforçar a importância da missão cristã no mundo, como anúncio do amor e da salvação, que se revelam de forma mais plena no testemunho de vida de todos os homens e mulheres de fé comprometida.

  1. É importante valorizar os formulários propostos no Missal Romano, para os diversos momentos da celebração, escolhendo-os de acordo com o Mistério celebrado de cada Domingo. Assim, recomendamos a bênção final V do Tempo Comum para que os corações dos fiéis fiquem atentos à Palavra do Senhor e assim, abracem o bem e a justiça.

  1. As palavras do rito de envio devem estar em consonância com o mistério celebrado: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita”. Ide em paz e o Senhor vos acompanhe!

11- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os povos e a s nações, os cristãos e os não-cristãos precisam estar atentos. Os que fazem a vontade de Deus estão plena ou implicitamente no Reino. Importa que essa resposta seja a mais clara possível. Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.

Celebremos a Páscoa semanal do Senhor valorizando os que assumem a sua missão em nossa diocese e no mundo inteiro, levando Jesus Cristo o “Santo de Deus” para a salvação de todos.

O objetivo da Igreja é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Um abraço fraterno a todos

Pe. Benedito Mazeti

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