23º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C, 08 de setembro de 2019

23º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C, 08 de setembro de 2019

06/09/2019 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

“QUEM NÃO CARREGAR SUA CRUZ E NÃO CAMINHA ATRÁS DE MIM NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO”

Leituras

         Sabedoria 9,13-19. Os pensamentos dos mortais são incertos.

         Salmo 89/90,3-6.12-14.17. Ensinai-nos a contar os nossos dias.

         Filemon 9b-10.12-17. Ele é como se fosse meu próprio coração.

         Lucas 14,25-33. Grandes multidões acompanhavam Jesus.

1- PONTO DE PARTIDA

Domingo da opção radical. A sabedoria popular diz que “quando Deus fecha uma janela, uma porta se abre”. A liturgia deste domingo ajuda a confirmar a sabedoria, de que Deus sempre tem algo muito melhor a nos oferecer. Isso nos direciona à dinâmica do despojamento, que é uma atitude muito necessária aos discípulos do Reino. Quem se apega às pessoas e às coisas tem prioridades que não são as do Reino. Esse comportamento é incoerente com o seguimento de Jesus. Ainda mais: quem não está disposto a abrir mão da própria vida, não pode ser discípulo daquele que se despojou por inteiro, em favor do Reino. Aqui, descobrimos que não se trata simplesmente de abrir mão de tudo, ao contrário, trata-se de ganhar o que verdadeiramente vale a pena.

Antífona de entrada. O Senhor é justo e justa é sua sentença. Que haja com misericórdia para o seu servo.

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Contemplando os textos

Primeira leitura – Sabedoria 9,13-19. Nosso texto constitui a terceira parte da oração de Salomão (capítulo 9) para pedir a sabedoria. É a conclusão da célebre oração de Salomão para obter a sabedoria (cf. Sabedoria 9,1-18)

Os versículos de 13-19 falam da necessidade da sabedoria; começam por salientar a incapacidade do homem, superior ao que se declara no versículo 5 a qual parece querer sondar a vontade positiva de Deus, aquilo que Ele espera de suas criaturas racionais, em especial daquelas a quem se manifestou mais abertamente seus desejos – uma resposta adequada. O homem não pode conhecer os desígnios de Deus (Isaias 40,13; Romanos 11,34; 1Coríntios 2,16) e, ainda menos, penetrar nas determinações divinas. Não se trata de conhecer a existência de Deus, que Sabedoria a supõe e o homem pode chegar a conhecê-la (13,1-9).

Ninguém pode conhecer os pensamentos do Senhor: se é tão difícil entender as coisas do mundo, muito mais é compreender os desígnios de Deus e os Seus projetos sobre a nossa vida (versículos 13-16). Só a “sabedoria”, o “espírito” que desce “do alto”, pode revelar os caminhos do Senhor e permite caminhar por eles. Mediante esta revelação os homens puderam “endireitar” as suas “estradas” e orientar a sua caminhada segundo a vontade de Deus. Sem a Sabedoria ninguém pode “conhecer” o que é agradável a Deus, nem pode “salvar a sua vida” (versículos 17-18).

Por nós mesmos chegamos (versículo 16), quando muito e com esforço, a um conhecimento precário das realidades terrestres, aliás ao alcance de nossas possibilidades. Até mesmo as ciências humanas pertencem ao âmbito da Sabedoria (Sabedoria 7,17-21; 8,8); que dizer, pois, quando se trata de encontrar indícios da realidade sobrenatural, das coisas celestes? É a experiência do contraste entre o que há na terra e o que está no céu. Entre as coisas celestes (versículo 17) está a vontade de Deus sobre nós. Jamais a poderíamos conhecer se Deus não nos desse a Sabedoria (Jó 22,12; Isaias 40,13; Eclesiástico 43,9; Lucas 2,14; Romanos 11,34; 1Coríntios 2,16), se não enviasse do céu o Seu Espírito Santo; dado o paralelismo, o “espírito Santo de Deus é aqui entendido como “Sabedoria” (Sabedoria 7,22).

A conclusão, referida em geral a todo o ser mortal (versículo 13), alarga a todos as reflexões atribuídas ao sábio Salomão: se ele, tão extraordinariamente dotado de sabedoria, teve que pedir a Deus a Sabedoria, para conhecer os segredos e os caminhos da vida, muito mais deverão fazer as outras pessoas. Cada pessoa, de fato, é “fraca e de vida breve, incapaz de compreender a justiça e as leis. Mesmo o mais perfeito entre os filhos dos homens, cheio de Sabedoria de Deus, seria julgado um nada” (cf. Sabedoria 9,5-6). A Sabedoria habita nos lugares celestes, junto do Senhor: só Ele pode dispor dela. A invocação do orante brota então espontânea e confiante ao Altíssimo: “Enviai dos santos céus… do vosso trono glorioso, para que ela me assista nos meus trabalhos e me ensine o que vos é agradável” (Sabedoria 9,10).

O auto de Sabedoria prepara deste modo a terceira parte – narração histórica, aplicando na prática as verdades enunciadas na segunda parte. Esta oração de Salomão pode servir a todos os cristãos, em especial àqueles sobre quem pesam responsabilidades e a quem Deus, por especial privilégio, confiou o serviço aos irmãos. No passado as melhores passagens desta oração enriqueciam o breviário no mês de agosto. É oportuno solicitar o espírito de Sabedoria para nós e para nossos chefes espirituais e autoridades civis.

Salmo responsorial – Salmo 89/90,3-6.12-14.17. O Salmo 89/90 é uma meditação conduzida com sabor sapiencial. O salmista lembra a eternidade de Deus, o qual já existia antes mesmo da criação do mundo (cf. versículos 1-2). Daí a súplica nos versículos 12-17 para que Deus ensine o povo a conhecer a si mesmo diante dele e experimente a alegria especial de servos, dos que vêem o poder de Deus e os próprios planos confirmados na graça.

O Salmo faz uma bonita meditação sobre a brevidade da vida humana, com súplica cheia de esperança. Com o “sempre” divino contrasta a breve vida humana: sentença de Deus que recorda o pecado de Adão.

Há um decréscimo marcado nestes versículos: os mil anos para Deus, o ciclo anual das plantas, os ciclos diurno das flores. Assim se estreita a vida do ser humano na meditação, porque o limite se apresenta com intensidade.

Aceitar essa limitação humana com o coração resignado já é uma sabedoria que pedimos a Deus e que, de certo modo, vence a tristeza. Mas não basta, e dentro da nova secção as súplicas continuam: “até quando?” é uma pergunta típica da lamentação.

A manhã é a hora propícia em que Deus ouve, em seu Templo. Ele pode preencher a vida breve de alegria e de júbilo, recompensando assim os anos maus e tristes. Esta vida humana é capaz de outra plenitude: contemplar a revelação de Deus na história humana. A história permanece plena da ação de Deus, e quem contempla se enche de mistério. Cheios dessa plenitude divina, nossos trabalhos e nossos dias parecem superar o tempo, e nós saímos da meditação com esperança.

No sentido cristão, há, contudo uma resposta mais elevada. A condição cristã não mudou a vida humana em seu caráter temporal: o cristão continua “triste pela certeza de morrer”. Mas também Cristo entrou nesta limitação humana, passou pela morte, venceu-a, e com sua ressurreição inaugurou a vida nova, que é plenitude sem fim. Se nossas obras participam da ressurreição de Cristo, permanecem chias para sempre.

O rosto de Deus no Salmo 89/90. O salmo revela um Deus aliado que caminha com seu povo. É o Deus do amor e da fidelidade que produzem justiça e direito. O Deus deste salmo tem os pés no chão e faz história com seu povo.

Jesus Cristo é a expressão máxima do amor e da fidelidade de Deus (João 1,17), palavras que atravessam ponta a ponta todo o Salmo 89/90. O tema da Aliança também encontra em Jesus seu ponto alto. A nova Aliança é selada no Sangue de Cristo.

Cantando este o Salmo 89/90 na celebração deste domingo, peçamos a Deus que nos dê muita sabedoria para aceitar a nossa limitação humana, assim teremos um coração sensato para reconhecer a nossa finitude. Somente assim podemos conhecer melhor a nós mesmos diante do Mistério de Deus.

VÓS FOSTES, Ó SENHOR, UM REFÚGIO PARA NÓS.

Segunda leitura – Filêmon 9b-10.12-17. O texto litúrgico começa com a auto-apresentação de Paulo que se declara “prisioneiro por amor de Cristo Jesus” (versículo 9); embora estando preso não deixou de anunciar o Evangelho e “gerou”para a fé Onésimo, a quem ama como um “filho” (versículo 10).

No texto em consideração, Paulo apresenta-se como velho e prisioneiro, que pede e não manda como poderia fazê-lo (versículos 8-9). É um homem fraco, porque limitado pela idade e pelas grades, que se propõe a pedir algo a um amigo. Nessa posição de fraqueza, ele de antemão conquista a benevolência do destinatário, e pede não para si mas por Onésimo, escravo de Filêmon, mas que, convertido por Paulo ao Cristianismo, tornara-se por isso mesmo irmão “no Senhor” de seu próprio amo.

Segundo a lei romana o escravo fugitivo poderia ser ferrado na testa, lançado às feras e mesmo crucificado. Paulo, porém, devolve-o a Filêmon como uma pessoa humana a ser respeitada e considerada como “irmão” porque no “Senhor”. Se não houve um rompimento com a estrutura social da escravatura, houve porém uma afirmação da dignidade da pessoa humana, do escravo por parte do Apóstolo, que o considera como próprio filho, pois o gerou para Deus, como gerara Filêmon. É como disse Santo Agostinho a respeito de sua mãe Santa Mônica: “que pela carne, concebeu seu filho para a vida temporal mas, pela fé e o coração, o fez nascer para a vida eterna.

Muitos acham que acabar com a escravidão não foi mérito do Cristianismo.

Mas isso de chamar de filho e de irmão caríssimo a um escravo fugitivo é só mesmo no Cristianismo.

Onésimo não é mais escravo (versículo 16), nem inútil (versículo 11: agora faz jus a seu nome, pois Onésimo significa em grego útil) mas filho de Paulo (versículo 10), seu irmão querido (versículo 16), seu coração (versículo 12). Se houve uma separação, agora haverá para sempre uma nova relação, de homens novos pois Filêmon-Onésimo foram feitos assim por Cristo. Estabeleceu-se uma nova relação de fraternidade onde não existe mais escravo ou livre (Gálatas 3,27s; Efésios 6,9).

Evangelho – Lucas 14,25-33. Na redação de Lucas, o texto é introduzido pela verificação de que “grandes multidões acompanhavam Jesus” (versículo 25). Dirigindo-se então às pessoas, que ninguém pode ser “seu discípulo” se não renunciar aos afetos mais queridos, à sua própria “vida”, e não seguir o Mestre “carregando a sua cruz e caminhar atrás Dele”, (versículos 26-27). Com a comparação da “torre” para ser construída e da “guerra”, que não se devem começar sem possuir as condições adequadas, Jesus declara a impossibilidade de ser seguido por aqueles que não renunciam aos seus afazeres (versículos 28-33).

Já de início Jesus começa com um a lista de renúncia a começar por pai/mãe; porém o resto da enumeração filhos/irmãos/irmãs retoma Mateus 19, 29 e Lucas acrescenta ainda “mulher” como no capítulo 18,29b (Mateus 19,29) e até a “própria vida” tendo em vista as perseguições dos cristãos.

Lucas é mais radical que Mateus. Enquanto Mateus fala em “amar mais”, Lucas literalmente diz “odiar”. Entretanto, trata-se aqui de um hebraísmo (a língua do Antigo Testamento) não conhecia o comparativo que pode ser traduzido mais exatamente em português por “amar menos” (cf. Gênesis 29, 31.33; Deuteronômio 21,15-16; Isaias 60,15; Malaquias 1,3; Lucas 16,13). Lucas 18,20 lembra a importância do quarto mandamento de Deus (Êxodo 20,12-16; Deuteronômio 5,16-20): não se trata de menosprezar os próprios familiares, mas sim de buscar em primeiro lugar ao Reino de Deus (Mateus 6,33). “Ser discípulo de Jesus” ou “entrar no reino de Deus” são duas expressões sinônimas.

Duas condições básicas para seguir Jesus: Tomar a cruz e entrar no Seu seguimento e perder a vida por causa Dele. Portanto, renunciar, isto é, perder a própria vida, quer dizer arriscar a própria vida por amor dos bens escatológicos que já estão ao alcance das mãos. Tomar sua cruz aqui significa arrepender-se e entregar-se totalmente a Deus; arriscar a própria vida na sua Palavra; assumir os sofrimentos e as dificuldades da vida que terminam na ressurreição; realizar, então, o plano de Deus, isto é, caminhar cada dia no cumprimento dos próprios deveres buscando realizar o próprio ideal nos acontecimentos; acompanhar o Cristo na caminhada da fé sem procurar desculpas e justificativas. Este é o verdadeiro martírio, isto é, testemunha. Depois de assumir tudo isso, o discípulo, então, segue o Mestre.

Carregar a Cruz também exprime o seguinte: se tiver que escolher entre a Cristo e ficar apegado demasiadamente a um dos membros da família, por qualquer motivo, o verdadeiro discípulo não terá a mínima dúvida escolhendo “a melhor parte que não lhe será tirada” (Lucas 10,42). Isto vale também para os bens matérias: “qualquer de vós que não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,33). Notemos que Cristo pede tudo isto não só ao grupo dos Doze mas sim às “numerosas multidões” (Lucas 14,25).

Confirmando e explicitando exigências tão radicais, Lucas acrescenta depois duas parábolas. Seguir Jesus é como querer construir uma “torre” (Lucas 14,28-30), portanto um edifício imponente e dispendioso para o qual se requer um grande investimento inicial e um compromisso de longa duração: duas componentes fundamentais na idéia de Lucas, ou seja, um empenho decisivo e a “perseverança” (cf. Lucas 21,19), as únicas que podem garantir o sucesso. Também a segunda parábola (Lucas 14,31-32) destaca os grandes sacrifícios ligados à seqüela de Jesus: é renunciar a todos os seus bens (Lucas 14,33).

Nesta dupla parábola, Lucas insiste sobre o dever de sentar-se (versículos 28 e 31), quer dizer de “parar” e de “refletir” sobre as possibilidades que temos ou não de atingir o objetivo proposto (a torre ou a vitória). Seguir Jesus não é uma empresa fácil. Aquele que ser o Seu discípulo deve antes de tudo medir suas forças. Se perceber que não tem a capacidade de agüentar a luta, mais vale abster-se para escapar à catástrofe. O Senhor exige espírito de sacrifício e de firmeza: “quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (Lucas 9,62).

Nestas duas pequenas parábolas Jesus revela que a decisão de segui-Lo e o compromisso com a sua proposta de vida devem ser frutos de algo bem planejado, amadurecido e coerente até o fim. Seguir Jesus não pode ser uma aventura. Por isso, o discipulado exige discernimento, não deve ser apenas empolgação.

Diante de tanto rigor para seguir Jesus, Lucas devia ter em mente as desistências de vários cristãos na hora das perseguições do Império Romano e também das perseguições da Sinagoga.

3- DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

Sem dúvida, as comunidades que acolheram o Evangelho de Lucas estavam passando por um período de instalação e acomodação. O ardor e o zelo, com certeza, haviam esfriado, e a proposta cristã não passava de conversa, isto é, de teoria. Lucas procura reacender nos irmãos e irmãs, o sentido do caminho, retomando as exigências do discipulado. A proposta é que cada um avalie as próprias forças e se decida.

Os vínculos puramente humanos de família e o interesse pessoal interferem, muitas vezes, e contrastam com o chamado de Jesus. Por isso, o seguidor ou discípulo de Jesus tem de romper com esses impedimentos. Se não está disposto a isso, não reúne as condições para assumir o projeto. No fundo, trata-se de levar a sério o caminho do Evangelho, de tal maneira, como dizia São Bento, que nada seja anteposto ao amor de Cristo.

O discipulado de Jesus não é um projeto que se faz sozinho. A multidão e os discípulos caminhavam com Jesus. É caminhando que se faz com os irmãs e irmãs, com as lideranças, com a comunidade, uns apoiando os outros na hora das dificuldades. Quem deseja buscar e seguir Cristo sozinho, vai ver seus projetos desmoronarem diante dos problemas. O próprio Jesus formou uma comunidade de discípulos, para encorajar um ao outro, a fim de perseverarem na fé e na liberdade de filhos de Deus, a exemplo de Paulo, que, mesmo aprisionado, se manteve fiel ao anúncio do Evangelho da Boa-Nova da libertação.

Na celebração deste Domingo, acolhemos esta Palavra, recebendo o testemunho de Jesus, pois Ele percorreu por primeiro este caminho. Ele resistiu a todas as dificuldades, foi despojado, entregou tudo, até a sua própria vida, até o fim: “E tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13,1). Esse testemunho fiel nos anima a assumir uma espiritualidade que tem como eixo o amor que exige renúncia e desapego: “Qualquer um de vocês que não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo”, pois, como diz o grande escritor Leloup, a única coisa que não se pode tirar de nós é aquilo que doamos.

4- A PALAVRA SE FEZ CARNE E SE FAZ CELEBRAÇÃO

É nesse espírito que nos reunimos, em Cristo, para celebrar a Eucaristia, momento no qual somos nutridos na fé, e continuamos nosso processo de iniciação à vida cristã. Enquanto esperamos a plenificação do Reino que, como discípulos, ajudamos a edificar; pela Eucaristia estreitamos nossos laços de fraternidade e de amizade no Senhor (Oração sobre as Oferendas). Esse relacionamento nos dá força na caminhada; discernimento na vocação e missão de discípulos; e permite a comunhão com os irmãos e irmãs. Assim, ao ampliarmos nossos laços, para além de nossa parentela, como recomenda Jesus no evangelho, crescemos como Igreja que é conduzida à unidade, testemunhando a comunhão própria do Reino. Sacramentalmente unidos ao Senhor, pela Palavra e pela Eucaristia, somos fortificados em nossa comunhão fraterna, até o momento no qual viveremos com Cristo para sempre (Oração pós-comunhão). Essa fraternidade deve ser tal, que nos empenhemos, mutuamente, sempre mais, em nos reconhecermos como irmãos, fora das divisões sociais, que tendem a rotular as pessoas por suas condições socioeconômicas. É o apelo que Paulo faz a Filêmon, senhor de Onésimo, escravo que se tornou cristão. Depois que esse ficou preso com Paulo, por amor ao Evangelho, o Apóstolo dos gentios recomenda que Onésimo seja recebido por Filêmon, “já não como escravo, mas, muito mais do que isso, como um irmão querido”. Esse é o testemunho do amor, o mandamento maior, acontecendo em nós. Assim, “pela Palavra do Evangelho do vosso Filho reunistes uma só Igreja de todos os povos, línguas e nações. Vivificada pela força do vosso Espírito não deixais, por meio dela, de congregar na unidade todos os seres humanos” (Oração Eucarística VI-A.

5- LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

O Pai nos reúne por meio de Seu Filho, alimenta-nos com sua Palavra e com o Pão da Eucaristia para que sigamos com sabedoria e firmeza os passos de Jesus, no caminho que conduz à ressurreição. O amor misericordioso do Pai nos liberta do individualismo, da insegurança e do medo de renunciar às realidades que nos prendem a um estilo de vida e de prática cristã alienados e materialistas, em vista de um novo modo de ser, marcado pelo seguimento de seu Filho e pela prática da caridade.

Iluminada pelo Espírito Santo, a assembléia é convidada a considerar, com sabedoria, as exigências do seguimento de Jesus e ter coragem de abrir mão daquilo que impede de optar pelo Reino de Deus. Assim, o mesmo Espírito do Senhor insere os membros da assembléia na comunidade dos que vivem guiados pela sabedoria que vem da misericórdia do Pai.

Na Oração Eucarística (Anáfora), a assembléia acredita e proclama a grandeza de Deus e que ele é a fonte de toda santidade (Oração Eucarística II).

Celebrar a memória pascal é aceitar ser discípulo de Jesus em todas as atividades do cotidiano e permitir que sua morte na cruz e sua ressurreição constituam a Terra de Santa Cruz – o Brasil – numa sociedade justa e solidária.

  1. ORIENTAÇÕES GERAIS

  1. Cada vez mais, cai em desuso os chamados “comentários” antes das leituras. Preferem-se as brevíssimas monições que exortam os fiéis para o acontecimento que se seguirá. São mais afetivos e introdutórios, do que informativos de qualquer conteúdo teológico ou catequético. São, inclusive, dispensáveis, sendo preferível o silêncio ou um refrão meditativo que provoque na assembléia aquela atitude vigilante para a escuta e conseqüentemente acolhida da Palavra de Deus. Sugerimos, neste caso, antes de iniciar a Liturgia da Palavra, o refrão “Senhor que a tua Palavra”.

  1. “É muito recomendável que os fiéis recebam o Corpo do Senhor em hóstias consagradas na mesma Missa e participem do cálice nos casos previstos, para que, também através dos sinais, a comunhão se manifeste mais claramente como participação do Sacrifício celebrado” (IGMR nº 56 h). Um dos mais graves abusos nas celebrações da eucaristia é a distribuição da comunhão do sacrário como prática normal. Assim pecamos contra toda a dinâmica da ceia eucarística, que consta da preparação das oferendas, da ação de graças sobre os dons trazidos, da fração do pão consagrado e da sua distribuição àqueles que, com a oblação deste pão, se oferecem a si mesmos com Jesus ao Pai.

  1. Lembrar que no dia 08, a Igreja celebra a festa da Natividade de Nossa Senhora.

7- MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos cantar a liturgia e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com cada domingo, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são do Tempo Comum, é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado. A função da equipe de canto não é simplesmente cantar o que gosta, mas cantar o mistério da liturgia deste 23º Domingo do Tempo Comum. Os cantos devem estar em sintonia com o Ano Litúrgico, com a Palavra proclamada e com o sacramento celebrado. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembléia, inseri-la no mistério celebrado (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico III da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados nos CDs Liturgia VI, VII, XII e CD: Cantos de Abertura e Comunhão.

 

  1. Canto de abertura. A justiça e a misericórdia de Deus (Salmo 118/119,137.124). “És um Deus justo, ó Senhor, e justiça é tua sentença”, “CD: Liturgia VII, melodia da faixa 1, exceto o refrão.

Como discípulos-missionários, somos chamados a renunciar tudo pra entrar no Reino de Deus. A celebração da Eucaristia nos torna aptos para abraçar o projeto do Reino. Nesse sentido outra opção importante para este Domingo é o canto “Vimos aqui, ó Senhor, pra cantar tua bondade”, CD: Cantos de Abertura e Comunhão, melodia da faixa 7.

 

  1. Hino de louvor. “Glória a Deus nas alturas.” Vejam o CD Tríduo Pascal I e II e também no CD Festas Litúrgicas I; Partes fixas do Ordinário da Missa do Hinário Litúrgico III da CNBB e também a versão da CNBB musicado por Irmã Miria Reginaldo Veloso e outros compositores.

 

O Hino de Louvor, na versão original e mais antiga, é um hino cristológico, isto é, voltado para Cristo, que exprime o significado do amor do Pai agindo no Filho. O louvor, o bendito, a glória e a adoração ao Pai (primeira parte do Hino de Louvor) se desdobram no trabalho do Filho Único: tirar o pecado do mundo, exprimindo e imprimindo na história humana a compaixão do Pai. Lembremo-nos: o Hino de Louvor não se confunde com a “doxologia menor” (Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo). O Hino de Louvor encontra-se no Missal Romano em prosa ou nas publicações da CNBB versificado numa versão que facilita o canto da assembléia.

 

  1. Salmo responsorial 89/90. Deus, mestre de sabedoria. “Vós fostes, ó Senhor, um refúgio para nós”, CD: Liturgia XII, melodia da faixa 5.

O Salmo responsorial é uma resposta que damos àquilo que ouvimos na primeira leitura. Isto mostra que o salmo é compromisso de vida e ele também atualiza e leitura para a comunidade celebrante. Primeira leitura, Palavra proposta e salmo Palavra resposta. Por isso deve ser cantado da Mesa da Palavra (Ambão) por ser Palavra de Deus. Valorizar bem o ministério do salmista.

 

  1. Aclamação ao Evangelho. (Mt 11,29ab). O Mestre manso e humilde, melodia da faixa nº 1, CD Liturgia XII. O canto de aclamação ao evangelho acompanha os versos que estão no Lecionário Dominical.

 

  1. Refrão após a o Evangelho. “Salve, ó Cruz libertadora”, CD: Festas Litúrgicas IV, melodia da faixa 6. Somente a primeira estrofe.

  1. Apresentação dos dons. A escuta da Palavra e colocá-la em prática, deve gerar na assembléia a partilha para que ela possa ser sinal vivo do Senhor. Devemos ser oferenda com nossas oferendas. Somos chamados a carregar a nossa cruz. O canto da apresentação das oferendas poderia ser “Nossa glória é a cruz, onde nos salvou Jesus”, CD: Festas Litúrgicas IV, melodia da faixa 8. Outra opção é o canto “As mesmas mãos que plantaram a semente aqui estão”, CD Liturgia VII, faixa nº 4.

  1. Canto de comunhão. “Quem não toma a sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,27). “Quem não toma a sua cruz e não caminha atrás de mim, nunca ele poderá ser meu discípulo, não pode seguir-me assim!”CD: Liturgia XII, melodia da faixa nº 4, exceto o refrão.

O Apóstolo Paulo nos afirma em Gálatas 6,14, afirma que o cristão deve orgulhar-se somente na cruz de Cristo. Nesse sentido podemos cantar o canto: “Ninguém pode orgulhar a não ser nisto, nos orgulhamos na cruz de Jesus Cristo”, CD: Festas Litúrgicas IV, melodia da faixa 9.

O canto de comunhão deve retomar o sentido do Evangelho de cada Domingo. Esta é a sua função ministerial. Na realidade, aquilo que se proclama no Evangelho nos é dado na Eucaristia, ou seja: é o Evangelho que nos dá o “tom” com o qual o Cristo se dirige a nós em cada celebração eucarística reforçando estes conteúdos bíblico-litúrgicos, garantindo ainda mais a unidade entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia. Isto significa que comungar o corpo e sangue de Cristo é compromisso com o Evangelho proclamado. Portanto, o mesmo Senhor que nos falou no Evangelho, nós o comungamos no pão e no vinho. É de se lamentar que muitas vezes são escolhidos cantos individualistas de acordo com a espiritualidade de certos movimentos, descaracterizando a missionariedade da liturgia. Toda liturgia é uma celebração da Igreja e não existem ritos para cada movimento e nem para cada pastoral.

8- O ESPAÇO CELEBRATIVO

  1. A cruz é uma peça importante nas celebrações do Mistério Pascal do Senhor. Ela é entendida pela Instrução Geral do Missal Romano como um elemento que deve recordar aos fiéis o acontecimento da fé ali celebrado.

  1. O simbolismo da cruz traz presente o anúncio da paixão e ressurreição do Senhor. A cruz processional, a mesma que será usada na procissão de abertura, esteja na entrada da Igreja, por onde todos passam. É uma forma de trazer presente o mistério que será celerado. Ela pode ficar aí até o início da celebração, ladeada de velas e flores, de forma que chame a atenção de todos os que vão chegando para a celebração.

  1. A cruz é símbolo da fraqueza humana fortalecida pela graça de Deus. Nela ficou exposta toda a fragilidade e se manifestou a misericórdia de Deus ao ressuscitar seu Filho Jesus Cristo.

  1. Conforme o Evangelho, a cruz dos cristãos (referência à vida gasta em favor do próximo) deve ser assumida, carregada pelo caminho da vida, à maneira de Jesus. Cláudio Pastro diz que ela é sinal da nossa vitória. Por isso “Uma procissão atrás da Cruz, traz presente a Igreja peregrina que segue a Cristo e caminha sob sua bandeira” Algumas sugestões práticas para a celebração:
  2. a) No santuário (comumente chamado de presbitério), deve haver uma cruz apenas, que leva o nome de cruz do altar. Trata-se da única cruz exposta neste espaço. Portanto, se houver uma cruz suspensa ou fixa, a cruz processional depois da celebração, é deposta em lugar à parte, pois se permanecer no espaço, cria-se duplicação simbólico; se não houver, a cruz processional é fixada em lugar de referência para a comunidade que celebra, em harmonia com o Altar (não sobre ele).

  1. b) Quando se trata de cruz processional, a seus pés dependendo do mistério celebrado naquele domingo, pode-se dispor um pequeno arranjo floral, o que lhe confere importância no contexto litúrgico. Importante, entretanto, que não concorra com as peças elementares e fundamentais do espaço: Cadeira presidencial, Ambão e Altar. Antes, deve estar em harmonia com elas.

  1. AÇÃO RITUAL

Acolher de maneira calorosa as pessoas que chegam para tomar parte na celebração. Ter um cuidado para com os portadores de deficiência, os idosos e as crianças, de modo que desde o início da celebração experimentem o amor solidário de nosso Deus que nos salvou por sua Cruz gloriosa.

Ritos Iniciais

  1. A celebração tem início com a reunião da comunidade cristã (IGMR 27.47). O canto de abertura começa tendo em conta essa realidade eclesial, e vai introduzir a assembléia no Mistério celebrado.

  1. A opção “C”, da saudação inicial, 2Tessalonicenses 3,5 é uma boa opção para essa celebração:

O Senhor, que encaminha os nossos corações para o amor de Deus e a constância de cristo, esteja convosco.

  1. O sentido litúrgico, após a saudação do presidente, pode ser feito por quem preside, pelo diácono ou um ministro devidamente preparado com palavras semelhantes às que seguem:

Domingo da opção radical. Fazemos memória do Cristo na consagração total de sua vida ao projeto de Deus. Recebemos dele uma palavra para renunciar a tudo, carregar a nossa cruz e ser seus discípulos. Celebramos a Páscoa de Jesus Cristo que se manifesta em todas as pessoas e grupos que seguem o Senhor na totalidade.

  1. Em seguida fazer a “recordação da vida” trazendo os fatos que são as manifestações da Páscoa do Senhor na vida da comunidade, do país e do mundo, mas de forma orante e não como noticiário. Deve ter presente a realidade dos(das) catequistas.

  1. Para a motivação do Ato penitencial sugerimos a fórmula 2 do Missal Romano, página 391:

No início desta celebração eucarística, peçamos a conversão do coração, fonte de reconciliação com Deus e com os irmãos.

Após uns momentos de silêncio, rezar cantando a invocação alternativa número 5 para o Tempo Comum da página 394 do Missal Romano:

Senhor, que sois a plenitude da verdade e da graça. Tende piedade de nós.

  1. Domingo é Páscoa semanal dos cristãos, dia do banquete eucarístico. Entoar de maneira solene o Hino de Louvor (Glória).

  1. Na Oração do Dia contemplamos nosso Deus que nos propicia redenção e adoção: que em Cristo tenhamos liberdade e herança eterna. O Senhor nos adota como filhos e filhas.

 

Rito da Palavra

  1. Cada vez mais se tem abandonado o hábito de fazer “procissão com a Bíblia”, já que a importância e a dignidade do Evangeliário foram recuperadas. A procissão, portanto, é reservada para o livro dos Evangelhos. Procissão que pode ser solenizada com incenso e velas. Na Aclamação ao Evangelho, sugerimos a procissão com o Evangeliário. Onde for possível, enquanto alguém entra com o Livro, a comunidade seja convidada a segui-lo até a mesa da Palavra.

  1. Em todo o rito, a Palavra se conjuga com o silêncio. Momentos de silêncio após as leituras, o salmo e a homilia, fortalecem a atitude de acolhida da Palavra. O silêncio é o momento em que o Espírito Santo torna fecunda a Palavra no coração da comunidade. Nem tudo cabe em palavras.

  1. Após a leitura do Evangelho, todos se voltam para a Cruz. Todos se ajoelham e cantar o refrão: “Salve, ó Cruz libertadora”, em seguida somente a primeira estrofe. CD: Festas Litúrgicas IV, melodia da faixa 6.

 

Rito da Eucaristia

  1. A Oração sobre o pão e o vinho nos convida a venerar Deus e ser fielmente unidos pela participação no Mistério. Que a participação na eucaristia estreite nosso laço de amizade.

  1. Para essa celebração, sugerimos a Oração Eucarística VI-A que destaca a missão da Igreja é estar a caminho da unidade. Se for escolhida as Orações Eucarísticas I, II e III sugerimos o Prefácio para os Domingos do Comum II, que contempla o mistério da salvação realizado na cruz. “Morrendo no lenho da Cruz, ele nos libertou da morte”, página 429 do Missal Romano. Seguindo esta lógica, cujo embolismo reza: “Compadecendo-se da fraqueza humana, ele nasceu da Virgem Maria. Morrendo no lenho da Cruz, ele nos libertou da morte. Ressuscitando dos mortos, ele nos garantiu a vida eterna”. O grifo no texto identifica aqueles elementos em maior consonância com o Mistério celebrado neste Domingo e que pode ser aproveitado na própria, ao modo de mistagogia. Usando este prefácio, o presidente deve escolher a I, II ou a III Oração Eucarística. A II admite troca de prefácio. As demais não podem ter os prefácios substituídos sem grave prejuízo para a unidade teológica e literária da eucologia.

  1. Distribuir a comunhão de maneira orante e sob as duas espécies, pois como diz a Instrução Geral do Missal Romano (IGMR): “A comunhão realiza mais plenamente o seu aspecto de sinal quando sob as duas espécies. Sob esta forma se manifesta mais perfeitamente o sinal dom banquete eucarístico e se exprime de modo mais claro a vontade divina de realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor, assim como a relação entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico do reino do Pai” (n. 271)

 

Ritos Finais

  1. A oração pós-comunhão faz uma ligação entre a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística: Deus nos nutre e fortifica pela Palavra e o Pão: sejamos sempre co-participantes com Cristo.

  1. Na bênção final, estender as mãos sobre o povo e rezar a fórmula 17, das Orações Sobre o Povo da página 533 do Missal Romano.

Olhai, ó Deus, esta vossa família, pela qual nosso Senhor Jesus Cristo não hesitou em entregar-se às mãos dos malfeitores e sofrer o suplício da cruz. Por Cristo, nosso Senhor.

  1. As palavras do rito de envio podem estar em consonância com o mistério celebrado. Quem não carrega a sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!

  1. É comum além, de entrar em procissão no início da celebração guiados pela cruz, também retirar-se do espaço sagrado em procissão, igualmente guiados pela cruz.

10- CONSIDERAÇÕES FINAIS

As concepções de cruz e modos de viver a cruz serão genuínos, na medida em que se segue o caminho de Jesus: buscar o Reino e, em conseqüência, encontrar a cruz impingida pelos representantes do anti-reino.

O objetivo da Igreja é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Um abraço fraterno a todos

Pe. Benedito Mazeti

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