10/06/2015 Off Por Diocese de São José do Rio Preto

A grande coisa que aconteceu em Nazaré, depois da saudação do anjo, é que Maria de Nazaré acreditou e tornou-se “Mãe do Senhor”. Não há nenhuma dúvida de que esse acreditar se refira à resposta de Maria ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Esta palavra de Maria representa o ponto alto de uma atitude diante de Deus, porque significa, da maneira mais elevada, a passiva disponibilidade junto com a prontidão ativa. Reconhecer o querer de Deus e aceitar que ele aconteça na própria vida, conforme essa vontade.

Orígenes, um grande teólogo de século III, escreveu, como se Maria dissesse a Deus: “Eis-me aqui, sou uma tabuazinha para escrever: o Escritor escreva o que quiser, faça de mim o que quiser o Senhor fundacao01de todas as coisas”. Mas Maria fez uma pergunta séria ao anjo: “Como se fará isto se eu não conheço homem?” (Lc 1, 34). Ela não pede uma explicação para entender, mas para saber como executar a vontade de Deus. Quer saber como comportar-se. Assim, ela nos mostra que, em alguns casos, não é lícito querer entender, a todo custo, a vontade de Deus, ou o porquê de algumas situações; é lícito, no entanto, pedir a Deus luzes e ajuda para cumprir essa vontade.

Como com Maria de Nazaré, há momentos numa vocação, em que a pessoa se encontra em total solidão. Só a pessoa e Deus sabem o que se está passando! Jesus disse a Tomé: “Porque me viste, acreditaste: bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditaram” (Jo 20, 29). Maria foi a primeira dos que, sem terem visto, acreditaram.

Como ter a força e a coragem de Maria, diante de uma decisão vocacional? Como sempre o Evangelho de Jesus nos pode ajudar. “E desde aquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa” (Jo 19, 27). Quem pode dizer o que significou, para o discípulo, ter consigo Maria, em casa, dia e noite? Rezar com ela, com ela tomar refeições, dialogar com ela, celebrar com ela o mistério do Senhor!
Ter Maria consigo, como conselheira, sabendo que ela conhece, melhor que ninguém, quais são os desejos de Deus a nosso respeito. Se aprendermos a consultar e escutar Maria em todas as ocasiões, ela se torna para nós Mestra incomparável dos caminhos de Deus, mestra que ensina interiormente, sem barulhos de palavra.

Eis um belo testemunho de uma pessoa que resolveu viver a experiência de vida com Nossa Senhora: “De um tempo para cá, nasceu-me o desejo de dar sempre mais espaço a Maria em minha vida; aliás, gosto de convidá-la para reviver em mim seu amor a Jesus, à Trindade Santa, seu silêncio, sua oração. Com muita confiança, ofereço-me a ela para ser um espaço concreto onde ela possa descer e reviver na Terra; ofereço-me a ela para ser como que a continuação de sua humanidade aqui na Terra. Por isso, parece que eu deva tornar-me espaço, espera de Deus, com o coração e o pensamento em Maria“.

Na vocação, chega um momento em que parece que Deus está pedindo que lhe sacrifiquemos o nosso “Isaac” (Gn 22, 1-14): a pessoa ou as pessoas, coisa, projeto, o trabalho, o cargo que apreciamos, que o próprio Deus, um dia, nos confiou e a que nos dedicamos com amor e carinho. Essa é a ocasião que Deus nos oferece para mostrar-lhe que ele nos é mais caro do que tudo, acima também dos seus dons, acima também do trabalho que fazemos por ele.

Deus pôs à prova Maria no Calvário, para “ver o que tinha no coração” e no coração de Maria reencontrou, até mais forte ainda, o seu “sim”, “Faça-se em mim”, do que aquele da resposta ao anjo. Tomara que, nesses momentos, Deus encontre também o nosso coração pronto para dizer-lhe “sim”, “faça-se em mim”. Estando junto da Cruz de Jesus é como se Maria de Nazaré continuasse repetindo, no silêncio: Eis-me. Aqui estou sempre para Ti, Senhor!

Depois do Pentecostes, na Igreja onde vivia com o apóstolo João, não era ela que governava que presidia, mas o apóstolo. Nenhuma fonte refere-se a prescrições emanadas de Maria ou por sua sugestão, mas numerosas fontes falam-nos da autoridade de João. Exercido o seu carisma, que tinha sido o de dar a vida a Jesus e acompanhá-lo, fielmente, até a cruz, Maria desaparece na Igreja, como o sal que se derrete na água, mas está aí atuante.

A vocação de Maria de Nazaré teve um princípio, e depois durou por toda a vida. Assim deve ser toda vocação: um “sim” de cada dia e em todos os dias da vida.