11/12/2015 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

As parábolas do Reino (Mc 4,1-34)

Na primeira parte de seu evangelho, Marcos reuniu algumas parábolas de Jesus sobre o Reino de Deus. O termo grego parabole significa comparação e corresponde à palavra hebraica mashal (Sl 78,2; Mt 13,35). O mashal, na realidade, era uma sentença sapiencial, um provérbio, base da sabedoria do povo de Deus. Literariamente, a parábola se diferencia da alegoria. Essa última busca descrever uma ‘figura’ da realidade, cujos componentes e proporções podem ser comparados com os elementos e proporções da realidade visada pelo narrador (J. Konings). Na Bíblia, há vários exemplos de alegoria como Ez 17,1-24, Rm 11,13-24 e Jo 15,1-8. Isso significa que, geralmente, todos os elementos de uma alegoria podem ser explicados e relacionados com o fato narrado. Não é o que acontece com as parábolas.

marcosNesse gênero literário, o mais importante é o acontecimento comparável como conjunto, globalmente, e não nos seus elementos distintos. Para a interpretação de uma parábola, não necessitamos explicar cada um de seus elementos, já que o seu sentido é aberto. A parábola provoca um questionamento no ouvinte, que, ao se envolver com a história, cai numa espécie de carapuça, de armadilha. Jesus utiliza esse tipo de linguagem para se comunicar com o povo. Ele falava do Pai e do Reino a partir do ambiente em que cresceu: a vida agrícola da Galileia. Os fatos do cotidiano, os valores e as propostas do ambiente palestinense da primeira metade do século I servem como instrumento pedagógico para Jesus explicitar aos discípulos em que consistia o Reino de Deus pregado por ele (Mc 1,15).

Estando no mar da Galileia (Mc 3,7-12; 4,1), Jesus profere suas parábolas para demonstrar, em primeiro lugar, que o Reino de Deus é escondido e invisível aos olhos do mundo, porque não se mede com a medida humana, nem depende da atuação do homem, mas é graça, dom gratuito de Deus para nós. Ele é transcendente e sobrenatural e, portanto, não pode ser identificado com nenhum tipo de ideologia ou de sistema político. A primeira parábola (4,3-9) busca ilustrar a oferta generosa do reino por parte de Deus na pregação de Jesus e as múltiplas respostas a ela. A semente é lançada em todos os terrenos, sem nenhum tipo de exclusão. Quando o homem se abre à graça, a Palavra produz fruto por si mesma (Is 55,10), transforma a vida do discípulo e o reorienta para Deus.

Como mencionado anteriormente, uma parábola não necessita de explicação exaustiva de todos os seus elementos. Isso provoca a seguinte pergunta: Por que, então, Marcos nos apresenta uma interpretação da primeira parábola (4,13-20)? Os exegetas argumentam que o evangelista relacionou a parábola das sementes aos obstáculos enfrentados pelas primeiras comunidades cristãs na propagação da fé em Jesus. Marcos, na realidade, tem como objetivo esclarecer o seu leitor sobre o que acontece ao missionário cristão na sua pregação do Reino. Os principais obstáculos à ação evangelizadora da Igreja primitiva seriam, portanto, Satanás (4,15), as perseguições (4,16-17) e os cuidados do mundo (4, 18-19).

A pregação do evangelho do Reino, com base nas parábolas, não visava excluir nenhuma pessoa da participação na obra salvífica de Jesus (4, 10-12.33-34). Marcos reflete sobre a situação da Igreja e propõe uma resposta à recusa dos judeus ao Evangelho. Por que houve um fracasso parcial do ministério de Jesus entre seu próprio povo (4,4-7)? A comunidade cristã entendeu que, para os outros (“os de fora”), as parábolas constituíam um enigma cujo sentido não podiam descobrir. Esse entendimento está relacionado com a aceitação da pessoa de Jesus como Messias e Salvador. Somente aos discípulos foi desvelado o mistério do Reino de Deus (Mc 4,11), porque ouviram a palavra de Cristo e a aceitaram como digna de fé.

Nesse sentido, as parábolas sobre a lâmpada (4,21-22) e sobre a medida (4,24-25) nos ensinam que o Reino proclamado por Jesus irá, um dia, tornar-se manifesto para toda a criação. Como membro da comunidade, o discípulo que já tiver essa percepção espiritual a terá ampliada pela exposição às parábolas e ao ensino de Jesus, enquanto, quem não a tiver, terá aumentada sua ignorância ou cegueira espiritual. Em outras palavras, a medida é a disposição do discípulo, a ‘abertura’ do coração, o dom que é concedido a partir de uma predisposição inicial do fiel para acolher o Evangelho.

Em seguida, Marcos demonstra que o crescimento do Reino acontece exatamente como o da semente: sem intervenção humana (Mc 4,26-29). O Reino não depende do esforço humano, pois a força que faz o Reino chegar é o poder de Deus. O foco dessa parábola é a dimensão escatológica da ação de Deus na história como presente em Jl 4,13 e Ap 14,15-16.

Por fim, a parábola do grão de mostarda (Mc 4,30-32) nos ensina que a vinda do Reino de Deus é inevitável. Seu início na história humana é pequeno e simples, porém, em sua plenitude, será grandioso (Dn 4,12; Ez 17,23; 31,6). O mistério do Reino de Deus não pode ser esgotado pelos conceitos humanos (Dn 2,35). Jesus quer mostrar para os discípulos que o Reino está presente para aqueles que têm o coração puro para reconhecê-lo. A presença do Reino já é uma realidade na ação e na palavra de Jesus. Ao mesmo tempo, algo a se manifestar no futuro, não porque está ausente, mas escondido aos olhos dos que não creem.

Em todas as missas, suplicamos a vinda do Reino (“venha a nós o vosso Reino”), porque ainda a história humana rejeita Deus e faz pactos com a idolatria do egoísmo. Entretanto, para aqueles que creem e amam, Deus já os governa e reina sobre eles. Nesse tempo do Advento, como povo de Deus, supliquemos ao Pai para que seu reinado se estenda sobre todos os homens e sobre todo o universo, e assim Ele seja, de fato, tudo em todos, por meio de seu Filho Jesus, nosso Rei e Salvador.

Pe. Hallison Henrique de Jesus Parro
Catedral de São José

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