4º DOMINGO DA QUARESMA  ANO B – 11 de março de 2018

4º DOMINGO DA QUARESMA ANO B – 11 de março de 2018

05/03/2018 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

Leituras

2Crônicas 36,14-15.19-23. Eles zombavam dos enviados de Deus.

Salmo 136/1137,1-6. Cantai hoje para nós algum canto de Sião.

Efésios 2,4-10. Deus é rico em misericórdia.

João 3,14-21. É necessário que o Filho do Homem seja levantado.

 

“QUEM NELE CRÊ NÃO É CONDENADO”

1- PONTO DE PARTIDA

 

Hoje é o domingo da alegria e do encontro de Jesus com Nicodemos. Neste 4º Domingo da Quaresma contemplamos um Deus apaixonado que faz Aliança com as pessoas. Já estamos bem mais próximos da festa da Páscoa. Neste domingo, recordamos o encontro de Jesus com Nicodemos e recebemos do Senhor o anúncio da paixão e entrega da sua vida, como prova de amor à humanidade. O fio condutor da liturgia de hoje é a passagem da morte para a vida, das trevas para a luz, do pecado à reconciliação.

 

Aproveitemos esta Quaresma para revisar quanto há de luz e sombras em nossa vida, família e comunidade em geral. Quanto há de luz e sombras nas organizações sociais de que participamos ou que estão presentes em nossas comunidades. Quanto há de luz e sombras nos dirigentes e em suas políticas de governo. Se quisermos tomar parte com Jesus, somos obrigados a “converter-nos em luz peregrina” que resgata aqueles que, ao nosso redor, vivem nas trevas e, ao mesmo tempo, desmascara os projetos que nos mantêm nas sombras da injustiça e da pobreza. Em muitas ocasiões e lugares, ser luz implica grandes riscos, porém é pior o risco de não aceitar o desafio, condenando-nos, nós mesmos, à pior de todas as trevas: estar longe da luz de Cristo.

 

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

 

Primeira leitura – 2Cr 36,14-16.19-23. A primeira leitura mostra como o Senhor se irrita contra seu povo quando este não crê Nele, quando “não leva em conta a sua Aliança”, ao passo que o livra e lhe concede sua misericórdia quando manifesta confiança em seu Deus. Deus mantém a sua oferta de vida e salvação, mesmo correndo o risco de ser desprezado pelas pessoas, cuja liberdade respeita, mesmo na opção pelo pecado. Pecado que é a ruptura da Aliança de Deus com seu povo e com as pessoas, a eleição das trevas, e a atitude de onde vem o agir com perversidade, isto é, as más obras (evangelho).

 

“Em verdade, vos digo: nunca encontrei em Israel alguém que tivesse tanta fé” (Mateus 8,10). Esta declaração de Jesus a respeito do centurião romano de Cafarnaum poderia ser aplicada também a Ciro, rei da Pérsia. Apesar de Deus ter enviado “desde o princípio e sem cessar os seus mensageiros” (versículo 15) a advertir o seu Povo, “todos os príncipes dos sacerdotes e o povo multiplicaram as suas infidelidades” (versículo 14). Mas enquanto Israel ficava surdo à Palavra do Senhor, um pagão, que não conhece o Senhor (cf. Isaias 45,4), escutai-a.

 

Ciro o estrangeiro, considerado excluído do Reino de Deus, é portanto, aquele que se torna instrumento da sua realização. Mais uma vez, “a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (Salmo 117,22; cf. Mateus 21,42). Quando os pastores do povo não são dignos seus encargos (cf. Ezequiel 32,1-10), o Senhor suscita um salvador precisamente entre os pagãos desprezados. “Eu digo a Ciro: tu és o meu pastor, e realizarás tudo o que Eu quero” (Isaias 44,28).

 

A idéia central desta leitura é, por um lado, destacar a infidelidade do povo e das lideranças de Israel ao projeto de Deus, isto é, o desprezo pelos profetas, a profanação do Templo de Jerusalém e as conseqüências deste pecado com a deportação do povo para a Babilônia; por outro lado, destaca a “fidelidade de Deus que não abandona seu povo”, mas, através de Ciro, rei da Pérsia, permite que o povo volte para a sua pátria. Nós desígnios de Deus, Ciro é apresentado como o ungido e também colaborador de Deus.

 

Salmo responsorial 136/137,1-6. É uma súplica coletiva. Um grupo (“nós sentamos e choramos”) clama a Deus (versículo 7) em uma situação difícil. É o canto dos exilados na Babilônia.

 

O Salmo 136/137 tem três momentos: versículos de 1-3; 4-6; 7-9. A liturgia deste Domingo utiliza os versículos dos dois primeiros momentos. No primeiro (versículos 1-3) o grupo conta a sua amarga experiência como exilado na Babilônia. Fala-se de “rios de Babilônia (versículo 1a). O grupo está exilado nos campos irrigados pelos canais de água dos rios tigre e Eufrates (compare com Ezequiel 3,15). Provavelmente trabalha como escravo a situação se agrava com a saudade de Sião (Jerusalém), provocando choro. Um povo escravo não tem motivos para festejar. Por isso desistem de tocar de tocar harpa.

 

No segundo momento (versículos 4-6) o grupo se recusa a cantar, dando as razoes para isso. O “canto de Sião” se torna agora, “canto do Senhor” (versículo 4a), deus libertador dos hebreus, ligado a uma terra e a uma causa. É impossível cantar um “canto do Senhor” em terra estrangeira, pois a terra de Israel, dom de Deus e conquista do povo, é parte integrante dessa “orquestra”. Vários salmos recordam isso. Quando Israel canta, a terra participa do coral que celebra as maravilhas de Deus, doador de uma terra para seu povo.

 

Este salmo lembra a triste situação do povo no exílio da Babilônia com saudades de seus costumes e tradições. Insultados pelos inimigos a cantar canções de sua terra, o povo se recusa e lamenta: “Como poderíamos cantar os cantos de nosso Deus longe dele, numa terra estrangeira?”.

 

O rosto de Deus no Salmo 136/137. O Salmo recupera aspectos importantes de Deus aliado, que deseja seu povo livre para que livremente expresse a própria fé. No Êxodo há essa insistência: os hebreus só poderão celebrar uma festa para o Senhor no deserto, em liberdade (Êxodo 5,1b). O Deus do Salmo 136/137 é esse mesmo Deus, amante da liberdade. Sem ela não há religião nem fé verdadeiras. É o Deus ligado a uma terra, a um povo, a uma cidade. Quando o povo tem tudo isso, então encontra o verdadeiro Deus. O rosto de Deus neste Salmo é um Deus aliado e libertador.

 

Jesus amou a cidade de Jerusalém, mas ela recusou a mensagem de paz (veja o que foi dito dos cânticos de Sião). Ele escutou o clamor de todos, pessoas ou grupos, libertando-os de todas as formas de escravidão e opressão. Com sua morte venceu o mundo (João 16,33), fazendo a humanidade um só povo de irmãos (João 10,16).

 

Cantemos no salmo responsorial, com todos os escravizados do mundo, e com os que estão exilados longe de sua terra, lembremos o lamento dos cativos e peçamos ao Senhor que apresse a sua justiça no meio de nós.

 

Segunda leitura – Efésios 2,4-10. O apóstolo Paulo apresenta à comunidade de Éfeso o centro e a meta do projeto de Deus para todos os seus filhos e filhas: Jesus Cristo a Nova Aliança. Esta leitura traz em abundância a mensagem do evangelho. Jesus Cristo é o sinal dessa gratuidade para com os pecadores, que não pode alegar nenhum mérito próprio: “De fato, é pela graça que fostes salvos, por meio da fé. A salvação não vem de vós: é dom de Deus. Não se deve às obras: ninguém se pode gloriar”. Destaca também a vida nova trazida para as comunidades cristãs pela “morte e ressurreição de Jesus”. A comunidade cristã é o lugar da realização do projeto de Deus, lugar do testemunho de um mundo novo onde testemunhamos Jesus Cristo a Nova e Eterna Aliança.

 

Devemos levar uma vida de ressuscitados enquanto estamos vivos. Os primeiros cristãos estavam tão convencidos de ter recebido do Senhor uma vida de qualidade indestrutível, que Paulo pode afirmar, sem embaraço algum, que a ressurreição não acontece só após a morte, mas a precede (cf. versículo 5). Não só, mas para Paulo essa plenitude de vida situa o cristão já na esfera de Deus, isto é, “nos céus” (versículo 6).

 

As afirmações de Paulo têm a sua raiz no ensinamento de Jesus, que declarou que quem, vive e crê Nele “não morrerá jamais” (João 11,26). “Aquele que acredita no Filho possui a vida eterna” (João 3,36). Esta não é um prêmio futuro que se obtém pelas “boas obras” feitas durante a vida terrena (cf. versículo 9), mas uma qualidade de vida que o cristão pode conseguir já nesta vida. Não são as nossas obras que nos salvam. Quem salva é Deus. Mas nossas obras encarnam Sua salvação. Porque nosso relacionamento com Deus não é comercial, mas vital.

 

Se a Palavra de Deus deste Domingo nos deixar indiferentes e frios como cristãos, como batizados e filhos amados de Deus, precisamos de uma hospitalização urgente devido à “alienação do sentido da vida e à perca total da consciência religiosa”, que nos impedem de captar a surpreendente novidade: Deus nos ama, Deus ama a humanidade.

 

Evangelho – João 3,14-21. Este domingo mostra que a salvação é dada por Deus, mas que precisa ser aceita pela humanidade, na fé. Hoje é o Domingo da Alegria. O diálogo com Nicodemos é, provavelmente, considerado como tipo do diálogo com o judaísmo oficial de Jerusalém. Nota-se, aqui, que “mundo” para o evangelista São João não significa, o mundo fechado, inimigo do plano de Deus, mas as pessoas que é objeto do amor de Deus. Deus envia seu Filho para que o mundo seja salvo, tenha a “vida eterna”. Não é somente “vida além da morte”, mas antes, vida que pertence ao aiôn, o “tempo de Deus”. É a vida divina. Ela não começa depois da morte, mas aqui e agora, se acolhemos, na fé, o dom de Deus: Jesus Cristo. Assim, quem crê em Jesus, não conhecerá a condenação, porque vive a vida de Deus. Quem não crê, porém, já é condenado, não por Jesus que veio para salvar (3,17), mas por si mesmo, porque não aceitou o dom de Deus.

 

Jesus provoca uma tomada de posição porque tudo o que Ele faz é em favor da vida, para que a humanidade seja salva. Ele não veio para condená-la; ao contrário, mediante sua prática de vida, propõe a todos a vida sem limites. Diante da prática de vida de Jesus as pessoas têm que tomar uma posição: com Jesus e a favor da vida ou contra Jesus e a favor da morte. Jesus não julga ninguém, nem condena. Simplesmente provoca uma tomada de posição. Mostra o que cada pessoa é a partir daquilo que faz a favor ou contra a vida. São as próprias pessoas que se julgam a partir das escolhas que fazem a favor ou contra a vida.

 

A pessoa humana responde a Deus com a fé ou a descrença. A fé e a descrença contêm já o juízo definitivo de Deus: salvação ou condenação. A fé é o critério último de vida e salvação plenas.

 

As três leituras coincidem em nos demonstrar que a crônica do pecado e infidelidade das pessoas para com Deus é paralela à história do perdão e amor de Deus para com os seres humanos (primeira leitura), manifestados no seu Filho, Jesus Cristo (segunda leitura), que o Pai entregou para a salvação de quantos Nele crêem (evangelho).

 

3. DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

 

Em toda a história da salvação, desde o Primeiro Testamento (primeira leitura), Deus nunca abandonou o seu povo, mesmo nas piores situações (caso do exílio).

 

Em todas as religiões, está presente a idéia do juízo e do castigo de Deus. Essa idéia de um Deus que castiga está ausente na mensagem de Jesus. O evangelista João é muito claro quando afirma: “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”.  E Paulo chega a escrever: “Quem condenara? Jesus Cristo? Ele que morreu, ou melhor, que ressuscitou, que está à direita de Deus e intercede por nós?” (Romanos 8,34). Deus não se comporta como um juiz, mas como um doador de vida. Um Deus apaixonado pelo ser humano.

 

O Evangelho de Hoje expõe: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito”. É preciso entende que a fé ou a incredulidade presentes contém já uma antecipação do julgamento definitivo de Deus: salvação ou condenação, ao mesmo tempo. Para João, o julgamento acontece na rejeição de Cristo, enviado do Pai; e isso, desde já; como também a salvação existe, desde já, na sua aceitação (João 3,18). Ora esta rejeição ou aceitação acontece na prática da nossa vida.

 

Deus mostra seu grande amor pelo mundo (João 3,16), dando seu próprio Filho querido. Contemplamos um Deus apaixonado pelo mundo. Deus retoma toda a história da salvação, estabelecendo no mundo o julgamento definitivo (não no sentido de Ele tomar a iniciativa de nos condenar, mas no sentido de Ele nos desafiar para a opção, que pode ser pelo Reino ou pelo anti-Reino).

 

Para essa possível opção, o Pai nos dá sua graça em Jesus Cristo, seu próprio Filho, que Ele enviou ao mundo para podermos vencer todo o pecado e começarmos já aqui a ter a vida eterna.

 

Contudo, para o bom observador da liturgia de hoje aparece atravessada por um fio homogêneo: a passagem da morte para a vida, das trevas para a luz, do pecado à reconciliação.

 

4- A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO

 

A assembleia se reveste da alegria de Deus

 

“Alegra-te, Jerusalém”. Com estas palavras da Antífona de Entrada, tem início a celebração do Quarto Domingo da Quaresma. Na oração da manhã (Laudes) do Ofício Divino, escutamos o trecho de Neemias que diz: “Não fiqueis tristes nem choreis, este dia é Santo para o nosso Senhor. Não fiqueis tristes, porque a alegria do Senhor será a vossa força”. A assembléia, revestida por esta alegria que tem sua origem em Deus, na sua Palavra, dá mais um passo rumo à celebração anual da Páscoa. Embora o Tempo da Quaresma não seja de tristeza – “Jejuai sem ficar tristes: não façais como os hipócritas” (Antífona do Cântico Evangélico Benedictus na Quarta-feira de Cinzas) – é um período dedicado à contrição das culpas, dada a percepção das infidelidades na Aliança com o Senhor. Esse domingo surge de surpresa como antecipador do júbilo pascal e, de maneira explícita, estimula à esperança. A tristeza dos fiéis deve ser curta, pois a esperança a derruba (Santo Agostinho, Carta a Sápida. In. Antologia Litúrgica. Textos Litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio).

 

O amor de Deus pelas pessoas

 

O que está em foco, portanto, é o amor de Deus dado em seu Filho Jesus, no intuito de fazer de seu povo uma nação transfigurada. O versículo da Aclamação ao Evangelho dá o tom: “Tanto Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único; todo aquele que crer nele, há de ter a vida eterna”.  Este mesmo versículo será entoado pela assembléia em procissão para o Altar, para a comunhão. A liturgia estabelece a razão da alegria cujo canto de abertura quer suscitar na Igreja, a “Nova Jerusalém”. Radica-se na extrema paixão de Deus pelas suas criaturas, isto é, um Deus apaixonado pelas pessoas. Os que vão para a Mesa da Comunhão entoando este canto espiritual – isto é, Palavra de Deus que penetra o íntimo do crente, e se exterioriza em forma de louvor – tem modificada a sua existência no trajeto rumo à Páscoa. Lembremos que o tempo quaresmal é descrito pela oração da Igreja como o “novo êxodo” (cf. Prefácio da Quaresma V, Missal Romano), um caminho que desemboca na reconstrução da vida de quem é fiel ao Evangelho – de quem pertence ao povo de Deus e desfruta de sua companhia como lembra Neemias na primeira leitura. Veja-se que o rito da comunhão nesse domingo, em articulação com a Liturgia da Palavra, dá a experimentar a “pedagogia divina”, cujo amor misericordioso não fica dominado pela tristeza passageira do exílio, da infidelidade, dos pecados, etc. Um amor que, ao contrário, assume tudo isso e transforma em ocasião de renovação da parceria na Aliança, tema tão caro na Liturgia do Ano B.

5. ORIENTAÇÕES GERAIS

 

1. É de se lamentar que muitas vezes são escolhidos cantos individualistas de acordo com a espiritualidade de certos movimentos, descaracterizando a missionariedade da liturgia. Toda liturgia é uma celebração da Igreja e não existem ritos para cada movimento e nem para cada pastoral. Cantos de adoração ao Santíssimo, cantos de cunho individualista ou cantos temáticos não expressam a densidade desse momento.

 

2. A comunhão sob as duas espécies é dom de Deus, direito dos cristãos e desejo de Cristo. Por isso, valem todos os esforços nesse sentido, garantindo para os comungantes o santo alimento oferecido na mesma celebração, deixando a reserva eucarística para a finalidade a que se destina: em primeiro lugar a comunhão aos enfermos e em segundo lugar ao culto eucarístico. “A finalidade primária e primordial de conservar a Eucaristia fora da Missa é a administração do Viático; são fins secundários a distribuição da comunhão e a adoração de nosso Senhor Jesus Cristo presente no Sacramento. A conservação das sagradas espécies para os enfermos introduziu o louvável costume de adorar-se esse alimento celeste conservado nas igrejas” (cf. Introdução Geral do Ritual da Sagrada Comunhão e o Culto do Mistério Eucarístico fora da Missa, 5, página 10). Isso mostra que o as sagradas espécies são conservadas após a Missa principalmente para os fiéis que dela não puderam participar, sobretudo os enfermos e pessoas idosas.

 

3. Organizar a entrega dos envelopes da Campanha da Fraternidade que deverão ser devolvidos no Domingo de Ramos.

 

6- MÚSICA RITUAL

 

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos “cantar a liturgia” e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com “cada domingo da Quaresma”, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são da Quaresma, “é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado”. Jamais os cantos devem ser escolhidos para satisfazer o ego de um grupo ou de um movimento ou de uma pastoral. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

 

A regra da reserva simbólica vale para todos. A liturgia nos ensina a reservar os elementos festivos para a festa da Páscoa. Assim, os grupos são chamados a serem mais moderados na execução dos instrumentos, evitando “solos instrumentais”, deixando de tocar algum instrumento, ou mesmo cantando algo “à capela” (sem acompanhamentos musicais). É tempo também de escutar, de ser “obediente”, de aguçar o discipulado: uma boa forma de manifestar isso seria assumir o repertório da CNBB para as celebrações.

 

1. Canto de abertura: “Alegra-te, Jerusalém” (Isaias 66/25,10-11). “Rejubila-te, cidade santa”, CD:CF-2018, melodia da faixa 7 ou CD: CF-2015, melodia da faixa 4.

 

Para os que não conhecem, outra opção é o canto: “Alegres vamos à casa do Pai”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 10 de Irmã Míria Kolling.

 

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembléia, inseri-la no mistério celebrado (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico II da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados no CD: Liturgia XIII, CD: Liturgia XIV, CD:CF-2018 e CD: CF-2015.

 

2. Ato penitencial. Nesse domingo seria oportuno rezar a invocação da Quaresma número 3 da página 397 do Missal Romano com uma leve alteração. Ver em a letra em Ação Ritual. Todos se coloquem de joelhos.

 

Senhor, que fazeis passar da morte para a vida, quem escuta a vossa Palavra…

 

3. Salmo responsorial 136/137,1-6. Israel nos rios da Babilônia. “Que se prenda a minha língua ao céu da boca se ti, Jerusalém, eu me esquecer.”, CD: CF-2015, melodia da faixa 7 ou CD: Liturgia XIV, música igual à faixa 9.

 

A função do salmista é de suma importância. Sua função ministerial corresponde à função dos leitores e leitoras, pois o salmo é também Palavra de Deus posta em nossa boca para respondermos à sua revelação. Por isso, o salmo dever ser proclamado do Ambão e, se possível, cantado.

 

4- Aclamação ao Evangelho. “De tal modo amou Deus o mundo, que lhe deu seu único Filho” (João 3,16). “Louvor a vós, ó Cristo, rei da eterna glória!… Tanto Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único”, CD: CF-2018, melodia da faixa 10 ou CD: CF-2015, melodia da faixa 9 ou CD: Liturgia XIV música igual à faixa 1.

 

Preserve-se a aclamação ao Evangelho cantando o texto proposto pelo Lecionário Dominical. Ele ajudará a manifestar o sentido litúrgico da celebração, conforme orientações da Igreja na sua caminhada litúrgica.

 

5. Canto após a homilia. Onde for oportuno depois de uns momentos de silêncio, entoar o canto “Salve, ó Cruz libertadora!”, seguido somente da primeira estrofe. CD: Festas Litúrgicas IV, melodia da faixa 6. Ver orientações em Ação Ritual.

 

6. Apresentação dos dons. O canto de apresentação das oferendas, conforme orientamos em outras ocasiões, não necessita versar sobre pão e vinho. Seu tema é o mistério que se celebra acontecendo na fraternidade da Igreja reunida em oração no Tempo da Quaresma. “Escuta, Senhor, a voz do povo teu”, CD: CF-2018, melodia da faixa 12. Podemos também entoar Oséias 14,2-9, “Retorna, Israel, ao teu Senhor”, CD: CF-2012, melodia da faixa 1.

 

7. Canto de comunhão: Alegria de subir a Jerusalém (Salmo 121/122,3-4). “Deus é rico em misericórdia”, CD: CF-2018, melodia da faixa 17 ou CD: CF-2015 melodia da faixa 15. “Tanto Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único. Quem crê nele não perece”, articulado com o Salmo 17/18, CD: CF-2012.

 

Como segunda opção de canto de Comunhão, o CD: CF-2012 indica um canto muito oportuno para este Domingo que nos ajuda a retomar o Evangelho. “Tanto Deus amou o mundo”, melodia da faixa 18, por razões obvias de sintonia entre o Rito da Comunhão e a Liturgia da Palavra.

 

O canto de comunhão deve retomar o Evangelho do 4º Domingo do Tempo Quaresma, que evidencia que é necessário o Cristo ser levantado da terra na Cruz para se tornar a Luz do mundo. Esta é a sua função ministerial. Quando agimos “conforme a verdade” nos aproximamos do Cristo-Luz para que possamos ser “luz do mundo e sal da terra”

 

7. O ESPAÇO CELEBRATIVO
1. Se há um elemento, que, sem palavras, cumpre a função mistagógica, isto é, de conduzir para dentro do mistério celebrado, este é o Espaço Sagrado. Por isso, devemos dedicar-lhe todo o nosso cuidado.

 

2. A cruz é elemento importante em qualquer tempo, mas na Quaresma é, sem dúvida, um sinal marcante da paixão de Cristo e da paixão do mundo. Para que esse sinal seja devidamente enfocado, sugerimos um incensário aos pés da cruz. As brasas sejam alimentadas de forma constante e discretamente, sem excessos.

 

3. Neste Domingo destacar no espaço da celebração os símbolos da Cruz e a luz. Ornamentar a Mesa da Palavra e o pé da cruz processional com velas acesas ou um foco de luz em consonância com os versículos do Evangelho de hoje João 3,14.19-21.

 

4. Por ser o Domingo da alegria, as flores podem voltar a ornar o espaço sagrado, mas com moderação, para não antecipar em demasia os tons de festa que serão a expressão da Vigília Pascal. A cruz processional, um dos elementos inocográficos que estamos valorizando neste tempo quaresmal, pode trazer um arranjo floral ao seu pé ou em sua haste. Ornamentar também o Ambão com um pequeno arranjo de flores. De preferência flores cor de rosa.

 

8. AÇÃO RITUAL

 

A celebração deste domingo nos recorda como homens e mulheres que nasceram no Batismo a se aproximarem de Cristo-Luz para ser “luzeiros“ de Deus no mundo, guiando os dias e iluminando as noites.

 

No momento em que acender as velas do Altar, deixar a igreja na penumbra e entoar um refrão meditativo de preferência à Cappella. “Ó Luz do Senhor, que vem sobre a terra, inunda meu ser, permanece em nós”.

 

Ritos Iniciais

 

1. Fazer uma acolhida muito fraterna e pessoal a quem chega para a celebração, principalmente os visitantes. Que todos possam sentir sua dignidade humana respeitada e sua identidade cristã reconhecida. Não devemos esquecer que os ritos iniciais, com o sentido de formar o Corpo vivo do Senhor, sejam bem valorizados neste domingo e sempre.

 

2. Como saudação presidencial sugerimos a de 2Tessalonicenses 3,5 (opção c):

O Senhor, que encaminha os nossos corações para o amor de Deus e a constância de Cristo, esteja convosco.

 

3. Após a saudação presidencial, as comunidades que já deixaram de fazer comentário antes do canto de abertura, porque entenderam o rito da Igreja e a primazia da saudação (Palavra de Deus que nos convoca), em seguida podem propor o sentido litúrgico.

 

Domingo da alegria e do encontro de Jesus com Nicodemos. Neste 4º Domingo da Quaresma contemplamos um Deus apaixonado que faz Aliança com as pessoas. Na celebração de hoje testemunhamos o encontro de Jesus com Nicodemos e recebemos do Senhor o anúncio da Sua paixão e a manifestação de Seu amor ao mundo.

 

4. Com qualidade especial o Ato Penitencial deve ser valorizado neste tempo de purificação e penitência. Dentre as fórmulas propostas pelo Missal Romano, escolhemos três invocações – a segunda e a terceira com leve alteração – que estão em sintonia com o itinerário proposto neste roteiro, no que concerne ao Mistério Celebrado. Quem preside, convidar a assembléia a ajoelhar-se diante da cruz.

 

Senhor, que fazeis passar da morte para a vida, quem escuta a vossa Palavra, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.

Cristo, que quisestes ler levantado da terra, para atrair-nos todos a vós e ao vosso amor, tende piedade de nós.

Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, que nos tornastes participantes do vosso Corpo e do vosso Sangue, entregues em nosso favor, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade de nós.

 

5. Na Oração do Dia suplicamos ao Pai, que reconcilia a todos em Cristo, nos concede correr ao encontro das festas que se aproximam, isto é, o Tríduo Pascal.

 

Rito da Palavra

 

1. Onde for possível, após a homilia  e uns momentos de silêncio, quem preside segura a cruz processinal no meio do presbitério à vista da assembléia e entoar o canto “Salve, ó Cruz libertadora!”, seguido só da primeira estrofe. Está no CD: Festas Litúrgicas IV, melodia da faixa 6.

 

“Salve, ó Cruz libertadora!”

 

Em teu corpo sem beleza e nem encanto,

Tu assumes o pecado e todo pranto.

Junto a ti está a dor da humanidade,

Ó Senhor, de todos nós tem piedade.

 

2. Onde houver adultos que vão receber os sacramentos da Iniciação Cristã na Vigília Pascal, em seguida, junto com os padrinhos e madrinhas, colocam-se diante do presidente da celebração para o segundo escrutínio (Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, pág. 74). No decurso desta semana pode ser celebrado o rito da entrega do Símbolo, caso não se tenha considerado melhor não celebrá-lo no tempo anterior.

 

3. Cristo se revela como a luz que veio ao mundo e nos convida a se aproximar dessa luz. É muito oportuno entregar uma vela acesa aos adultos que receberão os sacramentos na noite da Páscoa.

 

4. Fazer a profissão de fé e as preces dos fiéis diante da cruz erguida e, onde for possível com velas acesas.

 

5. Usar como oração eucarística a da Reconciliação I, a mais indicada para hoje.

 

Rito da Eucaristia

 

1. Na Oração sobre as Oferendas, peçamos a Deus que veneremos com fé os dons oferecidos com alegria pela salvação do mundo.

 

2. Como não há prefácio próprio para este domingo, sugerimos a escolha do Prefácio da Quaresma I que evidencia esperar com alegria a Páscoa Seguindo esta lógica, cujo embolismo reza: “Vós concedeis aos cristãos esperar com alegria, cada ano, a festa da Páscoa. De coração purificado, entregres à oração e à prática do amor fraterno, preparamo-nos para celebrar os mistérios pascais, que nos deram vida nova e nos tornaram filhas e filhos vossos”. Outra opção é o Prefácio da Exaltação da Santa Cruz que evidencia Cristo elevado na Cruz, nossa salvação, página 656 do Missal Romano. Pusestes no lenho da Cruz a salvação da humanidade, para que a vida ressurgisse de onde a morte viera. E o que vencera na árvore do paraíso, na árvore da Cruz fosse vencido. O grifo no texto identifica aqueles elementos em maior consonância com o Mistério celebrado neste Domingo e que pode ser aproveitado na própria, ao modo de mistagogia. Usando este prefácio, o presidente deve escolher a I, II ou a III Oração Eucarística. A II admite troca de prefácio. As demais não admitem um prefácio diferente. Elas não podem ter os prefácios substituídos com grave prejuízo para a unidade teológica e literária da eucologia.

 

3. O “amém” final do por Cristo, em Cristo…, que merece a mesma exultação, é a assinatura do povo à prece que o ministro ordenado, em nome da Igreja, elevou a Deus por Cristo, com Cristo, em Cristo, na unidade do Espírito Santo. Pelo menos aos domingos e dias de festa merece ser cantado.

 

4. A fração do pão, o nome mais antigo dado à Eucaristia, expressa a unidade dos que comungam no único pão e no único cálice. É um gesto profético de compromisso eclesial muito sério e social: quem come do pão que o Senhor reparte para nós compromete-se a repartir seu pão com o necessitado e a se preocupar com estruturas sociais mais igualitárias entre classes sociais, povos e continentes. A fração do pão deve ser uma ação ritual visível, acompanhada meditativamente pela assembléia com o canto do Cordeiro. Deve-se evitar a “fração o pão” durante o abraço da paz como muitas vezes acontece e a assembléia não percebe o significado profundo dessa ação ritual.

 

5. Ao apresentar o pão e o vinho, isto é, o convite à comunhão, o presidente da celebração mostrando o cálice e a ambula ou patena diz o versículo bíblico do Evangelho de João 8,12 e que se encontra no Missal Romano:

“Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida. Eis o Cordeiro de Deus…”

 

Ritos Finais

 

1. Não esquecer após a comunhão, reservar um tempo para a assembléia fazer um profundo “silêncio contemplativo” do encontro havido com Deus. Seria bom que até se fizesse uma breve motivação para esse momento de silêncio orante, previsto pelo Missal Romano, nº 121, página 57.

 

2. Lembramos que, em si, não há necessidade de um “canto de ação de graças” após a comunhão (como virou costume em muitas comunidades), pois a ação de graças, na verdade, já aconteceu; foi a Oração Eucarística. O Missal Romano orienta que depois da comunhão “guardar durante algum tempo um sagrado silêncio…”. Depois do silêncio contemplativo, “entoar um canto de louvor ou um salmo” (IGMR, nº 121. Lembramos também que durante a Quaresma omite-se este canto, e conserva-se o sagrado silêncio.

 

3. Na Oração depois da Comunhão, suplicamos a Deus luz de todo ser humano, que ilumine nossos corações com o esplendor da Sua graça.

 

4. Uma vez que a oração depois da comunhão lembra Deus como “luz de todo ser humano”, se for oportuno, pode-se distribuir as velas a serem usadas na Vigília Pascal, na Liturgia da Luz. Faça-se uma exortação adequada, partindo do mistério celebrado e da alegria e esperança cristãs que se enraízam em Deus, no amar abundante, levando a assembléia a se comprometer em estar presente na Vigília Pascal, trazendo a vela recebida nesse Quarto Domingo. Se não for oportuno dar a as velas para toda a assembléia, distribuí-las ao menos aos adultos que receberão os sacramentos. Por exemplo: “Recebam, irmãos e irmãs, as velas que deveremos acender no Fogo Novo do Círio Pascal, ao celebrarmos com maior esplendor a razão de nossa alegria em Deus, que nos salva e nos quer part+icipantes de sua vida. Guardai com devoção estas velas e lembrai-vos de vir celebrar conosco as núpcias do Cordeiro Pascal”.

 

3. Bênção solene, para todo o povo, como sugere o Missal Romano, página 521 ou a também a oração sobre o povo, número 7, página 531:

 

Iluminai, ó Deus de bondade, a vossa família, para que, abraçando a vossa vontade, possa viver fazendo o bem. Por Cristo, nosso Senhor.

 

4. As palavras do rito de envio podem estar em consonância como mistério celebrado: “Quem age conforme a verdade aproxima-se da luz”. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.

 

9- CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Dia por dia, somos desafiados pelo Cristo crucificado, mas muitas cruzes que vemos, nas muitas que sofremos. Desafiados pelo sofrimento que se abate sobre o ser humano, templo de Deus, irmão do Cristo. Somos convidados a tomar uma posição: mirar-nos na verdade, deixar-nos invadir pela Luz, isto é, pela Cruz se chega à Luz.

 

O objetivo da Igreja é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

 

Um abraço fraterno a todos

 

Pe. Benedito Mazeti