8º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C, 03 de março de 2019

8º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C, 03 de março de 2019

01/03/2019 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

“O HOMEM TIRA COISAS BOAS DO BOM TESOURO DO SEU CORAÇÃO”

 

Reprodução | Internet

 

Leituras

         Eclesiástico 27,5-8. Não elogies a ninguém, antes de ouvi-lo falar.

         Salmo 91/92,2-3.13-16. O justo crescerá como a palmeira.

         1Coríntios 15,54-58. Jesus Cristo nos deu a vitória.

         Lucas 6,39-45. A boca fala do que o coração está cheio.

 

1- PONTO DE PARTIDA

Domingo da lei escrita no coração. Uma das necessidades do ser humano é a convivência com os companheiros de sua caminhada. A vida em comum só é rica quando partilhada na sinceridade, e isto só acontece quando as pessoas descobrem a dimensão evangélica do relacionamento pessoal e também nas redes sociais, na qual descobre o valor de cada um. Então deixa de lado o egoísmo e o farisaísmo, a ganância e a capacidade de explorar, o roubo e a corrupção, trocando tudo isso pelo amor cristão ensinado por Cristo. Assim, as pessoas tornam-se solidárias e guias umas das outras.

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

 

Contemplando os textos

Primeira leitura Eclesiástico 27,5-8. O texto pertence a uma ampla seção, na qual é enfrentado com destaque o tema da avaliação/julgamento das pessoas em diversas situações. O texto adverte à verdade no julgar e oferece também as bases do julgamento. O autor acentua os perigos que ameaçam a integridade do ser humano e apresenta exemplos concretos para dar a entender a dimensão interior da pessoa. Pode que as aparências não revelam sempre, ou imediatamente tudo o que está dentro de nós.

Bem Sirá mostra o critério que fará sobressair o verdadeiro valor de uma pessoa é o modo de falar/raciocinar. Os exemplos que apresentados ajudam a esclarecer melhor o princípio proposto: o forno prova os vasos feitos pelo oleiro (cf. versículo 5) e os frutos revelam a qualidade do campo (cf. versículo 6); o exemplo é retomado por Jesus em Mateus 7,16-20 e Lucas 6,43-45. É preciso examinar a pessoa, avaliando as suas palavras, já que lãs demonstram o que se passa na sua mente. A palavra revela, com efeito, o íntimo do coração e o descobre naquilo mesmo que se pretende esconder (versículos 4-6). É próprio do sábio poder dominar a sua palavra para não se revelar porém quando o entender, e para deixar falar o interlocutor bastante tempo para poder julgar o seu coração, isto é, adverte que não se elogie ninguém antes de que ele fale (cf. versículo 7). A palavra é o espelho que manifesta a sabedoria e a riqueza do ser humano, ou então sua ignorância e miséria.

Bem Sirá conhece bem os pecados da língua: as acusações e contestações que ela provoca (Eclesiástico 8,1-19; 28,8-12), os juramentos demasiados e precipitados (Eclesiástico 23,7-15), as mentiras e duplicidades (Eclesiástico 20,24-26; 19,4-12_ e acima de tudo a hipocrisia (Eclesiástico 5,14; 6,1; 28,13-16).

Ora, a cultura moderna, submissa à publicidade, à mídia e às redes sociais, à propaganda enganosa aliena a palavra, destaca-a de toda a raiz humana, faz dela o elemento de um jogo incontrolado, a tal ponto que a linguagem perde o seu valor racional, não liga mais entre si as pessoas, mas apenas agrupa numa enorme Babel aqueles mesmos que acreditam empregar um vocabulário idêntico e falar a mesma língua. Não é mais somente o coração da pessoa que a palavra revela, mas o próprio coração de uma sociedade em estado de decadência. Todo ser humano nasce com um cabedal de potencialidade, mas que precisam ser desenvolvidas, cultivadas e aprimoradas. As reflexões e as sentenças dos sábios são as normas para esta arte de cultivo permanente. E a palavra que a pessoa profere em suas conversas é como fruto desta cultura. Sua qualidade revela a qualidade do cultivo.

Se o vaso não é bem feito, se não é de boa argila e bem trabalhada, não resiste ao fogo do forno, mas racha e se estraga. A conversão é como o fogo do ceramista. Manifesta de que material é construído o interior da pessoa. E se o interior é de má construção, a pessoa sofre perda diante dos outros. Difama-se por suas próprias palavras. Cristo afirma coisa semelhante: “Pois a boca fala aquilo de que  o coração está cheio” (Mateus 12,34).

 

Salmo responsorial – Salmo 91/92,2-3.13-16. É um salmo de ação de graças pelo nome do Altíssimo, pelo seu amor fiel, pelos atos de justiça de nosso Deus. A ação de graças é constante, dia e noite, a vida inteira. O salmista nos garante que é bom celebrar o Senhor nosso Deus. É um hino didático que desenvolve a doutrina tradicional dos Sábios: destino feliz dos justos e ruína dos ímpios (cf. Salmo 37; 49 etc.).

O rosto de Deus neste Salmo é de fundamental importância. Deus é chamado de “Altíssimo” (versículo 2b), “Deus” (versículo 14b) e “Rocha” (16b). Chama a atenção o que diz na introdução: “anunciar pela manhã pela manhã o teu amor e tua fidelidade pela noite” (versículo 3). Amor e fidelidade são as características do Deus aliado. Foi assim que Ele fez Aliança com Israel.

A prática da justiça foi preocupação fundamental de Jesus (cf. Mateus 3,15; 5,20; 6,33). A nova justiça trazida por Ele faz surgir o Reinado de Deus. Os atos, obras, e projetos de Jesus vão todos nessa direção. Basta, por exemplo, ver o que dizia a lei em relação ao leproso (Levítico 13,45-46) e comparar com o modo de ser e agir de Jesus quando se tratava de aplicar essa lei (Mateus 8,1-4).

Entoando este salmo em nossa celebração, peçamos que o Senhor renove todas as coisas e nos confirme na fé e na Aliança do seu amor fiel.

COMO É BOM AGRADECERMOS AO SENHOR.

Segunda leitura – 1Coríntios 15,54-58. Paulo conclui o longo discurso sobre o mistério da ressurreição (cf.1Coríntios 15,1-58). Já reafirmou a historicidade da ressurreição de Cristo e esclareceu o “como” da ressurreição dos cristãos, sempre em relação a Cristo. O Apóstolo conclui com um hino triunfal a parte dogmática da Carta aos Coríntios. Paulo lança um grito jubiloso com a consciência do cristão que sabe ter sido vencido, para sempre, o mais infeliz dos inimigos. Com a ressurreição de Cristo, primogênito dentre os mortos, a morte foi derrotada, seu agulhão, isto é, seu ferrão foi quebrado.

Como os animais temem o ferrão do seu condutor, e as pessoas o ferrão do escorpião, a morte foi temida em todos os seus tempos e lugares da terra. Após a morte e ressurreição de Cristo, porém, a morte está potencialmente derrotada, mas de fato continua a atemorizar porque ainda não estamos na Eternidade.

Neste hino dedicado à vitória de Cristo sobre a morte, Paulo revela que haverá um tempo em que o nosso corpo corruptível e mortal será “revestido de incorruptibilidade/imortalidade”; isto é, deixamos um corpo corruptível vamos ressuscitando num corpo incorruptível, vamos deixando um corpo de trevas e vamos ressuscitando de luz, com isso se realizará a palavra da Escritura: “a morte foi absorvida na vitória” (versículo 54. Após a morte Cristo nos dá um corpo glorioso, isto significa que o nosso espírito não fica sem corpo. Aqui neste mundo o nosso espírito tem esse corpo, após a morte ele terá um corpo espiritual, ressuscitado. O que apodrece no túmulo é o nosso cadáver, e não a nossa identidade. O Apóstolo retoma aqui livremente Isaias 25,8 e Oséias 13,14.

Neste quadro de inspiração judaica, Paulo propõe, entretanto, doutrina tipicamente cristã: a ressurreição com a qual os judeus contavam não era, no fundo, senão uma espécie de recuperação de seu corpo físico no intuito de participar de um reino também material (1Reis 17,17-24). Mas a Páscoa do Senhor permitiu, às conjecturas de Paulo, superar tal conceito: a ressurreição não será mais simples recuperação, mas simples recuperação, mas transformação e acesso de nosso corpo à condição glorioso de Cristo. A ressurreição, no conceito cristão, tem, pois, um sentido diferente da ressurreição elaborada nos meios judaicos. A doutrina do “estar com Cristo” é que leva Paulo a tal conceito. Assim sendo, se a ressurreição não é simples recuperação de corpo morto, mas acesso a uma corporalidade nova e espiritual, ela interessa tanto aos vivos quanto aos mortos.

A condenação que encontramos em Gênesis 3,19, em que a morte é fruto do pecado, é abolida pela redenção por Cristo. É muito forte a imagem utilizada por Paulo para revelar o aniquilamento da morte: “absorvida, engolida” (cf. versículo 54). A imagem revela bem a eliminação total da morte, a qual se transforma, através da obra de Cristo, em vitória. O próprio Jesus travou com a morte uma luta cósmica, e por isso Paulo ao falar disso chamou-lhe “o último inimigo” (cf. 1Coríntios 15,15.26).

Evangelho – Lucas 6,39-45. O texto deste VIII Domingo do Tempo Comum pertence ao amplo “Discurso da Planície” e os destinatários são ainda os Doze, os discípulos e as multidões (cf. Lucas 6,13.17.27). Do ponto de vista literário deparamo-nos com uma parábola rica em interrogações, nas quais a resposta já é bem evidente. Jesus coloca as perguntas porque quer provocar o consentimento, a adesão dos Seus ouvintes àquilo que vai dizendo. É o método chamado ad hominem que provoca o envolvimento positivo dos presentes nas perguntas urgentes do Divino Mestre.

Jesus, nesta parte do “Discurso da Planície”, envolve de um modo ainda mais direto os Seus ouvintes com uma parábola que contém uma série de quatro perguntas muito fortes: “Poderá um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco? (versículo 39). Porque vês tu o cisco no olho do teu irmão e não percebes a trave que há no teu próprio olho? (versículo 41). Lucas insere aqui a parábola dos dois cegos que Mateus aplica aos fariseus (15,14), para adaptá-la desta vez aos discípulos.

As quatro imagens refletem sobre a realidade do olhar. Tratam-se de perguntas até exageradas. A relação irmão-trave, cisco-olho pretende remover um grande obstáculo: a hipocrisia que mora no coração humano! A palavra “hipocrisia” é central na argumentação de Jesus! (versículo 42).

O Divino Mestre põe às claras as raízes e as conseqüências da hipocrisia: é uma conduta que não exprime o pensar do coração. No exemplo sucessivo da árvore (cf. versículos 43-45), Jesus afirma que não se podem colher frutos bons ruim: os frutos do ser humano revelam a verdade do seu coração (bom ou mau) enquanto centro da pessoa.

Deve fazer com que todos nós possamos refletir também a afirmação: “O discípulo não é superior ao mestre” (versículo 40).

Este trecho pertence a um conjunto importante do plano doutrinal. Trata-se claramente de uma espécie de catecismo moral, redigido de modo especial para os convertidos do paganismo, mas baseando-se em frases de Jesus, reunidas em torno de certas palavras chaves (medida no versículo 38; olho no versículo 39 sobre o cego, e 41-42 sobre o cisco e a trave).

A parábola contém uma dupla aplicação: para guiar os outros, é preciso ser muito lúcido, antes de seguir um mestre qualquer é preciso também ser bastante clarividente, isto é, ter muita clareza.

Tornar-se guia é uma tarefa nada fácil e de alta responsabilidade. Com efeito, se o orientador for cego, coitado daquele que o segue: cairá também no mesmo erro. Aquele que pretende ser luz e caminho para os outros deve tomar o cuidado de estar muito bem preparado: isto não se improvisa. Nunca deve se colocar como pessoa perfeita que aponta os erros dos outros numa atitude condenatória. É uma gravíssima tarefa.

Deve-se distinguir o guia iluminado por Deus do guia cego que não sabe para onde vai. Os falsos profetas não faltam, por isso, não se pode ir atrás de qualquer um ser ter olhado anteriormente se ele é digno de fé, senão os dois caem no mesmo buraco, na mesma heresia.

Jesus nunca falava um ensinamento sem partir da vida real. A parábola refere-se a um fato da vida cotidiana das pessoas do campo: na beira das estradas havia muitos poços e vala profunda que tornavam perigosa uma viagem à noite. Tratando-se de cegos, é inevitável que caiam neles.

Lucas liga nitidamente o versículo 40 com o versículo 39: tal mestre, tal discípulo. Prudência antes de qualquer pretensão de guiar os outros! Prudência na hora  de escolher um mestre espiritual! Evitará a advertência feita por Jesus: “são cegos conduzindo cegos!” (Mateus 15,14). Saibamos abrir os olhos! “Em terra de cego, quem tem um olho é rei”.

A lição é muito clara: enxergar unicamente as pequenas imperfeições dos outros escondendo os nossos próprios defeitos, muito maiores, revela um comportamento falso hipócrita. Querer julga os outros sem começar por uma autocrítica é uma falsa de postura é uma hipocrisia, uma mentira. Primeiro devemos purificar o nosso olhar: “cada um vê mal ou bem, conforme os olhos que tem.

Isto não exclui a correção fraterna (Lucas 17,3-4), missão importante da comunidade cristã. Porém, devemos sempre começar por nós mesmos: “Médico, cura-te a ti mesmo” (Lucas 4,23b).

A parábola da árvore (versículos 43-44). “O fruto mostra o cultivo da árvore e a palavra (mostra) as qualidades do homem” (Eclesiástico 27,6). Lucas aplica aos próprios discípulos. A atitude moral verifica-se por seus frutos (cf. Tiago 3,12; Lucas 13,6-9; 23,27-31; Isaias 5,1-7; Ezequiel 19,10-14). A idéia vem da corrente sapiencial: o justo é comparado a uma árvore que dá frutos cheios de sabor de doçura, enquanto outras as árvores se tornam estéreis (Salmo 1; Salmo 91, 13-14; Cântico dos Cânticos 2,1-3 Eclesiástico 24,12-27). O justo produz bons frutos porque é irrigado pelas águas divinas. Os frutos serão particularmente abundantes na era escatológica (Ezequiel 47,1-12). Evidentemente, o cristão enraizado na árvore da Vida que é Jesus Cristo (João 15,1-8) produz os frutos do Espírito (Gálatas 5,5-26; 6,7-16), enquanto o Judaísmo se torna uma árvore estéril (Mateus 3,8-10; 21,18-19). Para Lucas os frutos são sobretudo as atitudes de caridade.

Compreende-se, assim, que a parábola do cisco e da trave esteja ligada com a imagem dos frutos: com efeito, é no perdão mútuo e na recusa de julgar os outros que a moral cristã produz seus melhores frutos, revelando profundamente a vida divina que irriga a árvore.

A parábola do tesouro mostra que segundo o modo de pensar bíblico, o coração representa o que nós atribuímos hoje ao cérebro: era o centro da vontade e da vida psíquica, intelectual, afetiva, moral e religiosa. Os rins eram considerados como o centro da consciência, da dor e dos outros sentimentos que atribuímos hoje, na nossa cultura, ao coração.

O tesouro (= “o coração”) está escondido; entretanto, é ele que vai definir o nosso estilo de vida, a nossa mentalidade. Pode ter tesouros de bondade ou de maldade; o nosso modo de agir, de comportar-nos e de pensar vão revelar a qualidade do nosso tesouro-coração.

Só Deus tem o poder de sondar os rins, e o coração (Jeremias 11,20; Apocalipse 2,23). É por causa disso que ninguém pode julgar ninguém; Deus é o único Juiz justo porque retribuirá a cada um de nós segundo os talentos recebidos: “impenetrável é o coração; assim quem poderá compreender entre todos os homens? Eu, o Senhor, esquadrinho os corações e provo os sentimentos, para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto de suas obras” (Jeremias 17,9-10).

3- DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

No Evangelho Jesus convida, à prudência e à compreensão dos outros. Ele dia que guia bem os outros, e é bom mestre, aquele que por sua vez é ajuizado, prudente e não cego! Nas relações fraternas é preciso estarmos atentos aos juízos, para não condenarmos hipocritamente o próximo pelos pequenos defeitos, esquecendo os grandes defeitos que podem existir em nós. A pessoa que tem o coração bom demonstra nas ações frutos de bondade, tal como o a pessoa má deixa transparecer o mal que existe nele. É importante para Jesus harmonizar o bem do nosso interior com o bem do nosso exterior, contra a falsidade de quem pensa diversamente de como fala ou de como se manifesta.

Já Bem Sirá (primeira leitura) acentua a importância da palavra, porque ela revela os sentimentos como a árvore ostenta os frutos, por isso ele afirma que o juízo a respeito dos outros deve ser expresso depois de os ter ouvido. Neste sentido coloca-nos na direção de Jesus.

Toda a Palavra nos recorda que somos chamados a seguir Jesus, sem medo, nem mesmo da morte porque a morte em Cristo se tornou vida (segunda leitura). Paulo, com grande coragem lança o seu olhar para além das fronteiras da História, para anunciar um “mistério” (1Coríntios 15,51): a chegada gloriosa da História humana na volta de Cristo, quando se der o aniquilamento do último inimigo, isto é, da morte (1Coríntios 15,26).

Nesta parte da Carta, Paulo abandona o ensino recebido da Tradição e utiliza muitas imagens da apocalíptica para anunciar o triunfo certo, global e definitivo de Cristo sobre o mal e sobre a morte. Paulo nos encoraja a vivermos conforme o Espírito de Cristo e à Palavra que é, assim, fonte de sabedoria e norma de vida. Ela ajuda-nos a compreender e amar os nossos irmãos e irmãs, evitando tornar-nos juízes presunçosos, hipócritas e maus, e pelo contrário trabalhadores incansáveis de bondade e de paz. “Sabendo que o vosso esforço não é inútil no Senhor” (1Coríntios 15,58b).

O julgar os outros condenando-os é sinal inequívoco de intolerância; esta, por sua vez, nasce da soberba – a trave no próprio olho – que nos impede de ver como somos e nos faz crer que somos melhores que os outros e os donos da verdade. O julgamento sobre os irmãos não compete a nós, mas a Deus, que é “clemente e fiel, amor, paciência e perdão” (Salmo 85,15). O Senhor tem compreensão das nossas falhas humanas, temos que imitar.

Nesta celebração, peçamos que o Senhor faça crescer em nós a compaixão e a misericórdia, que derrame em nosso íntimo Seu Espírito de amor e nos livre da amargura e de julgar e condenar.

4- A PALAVRA SE FEZ CARNE E SE FAZ CELEBRAÇÃO

O caminho discipulado implica em viver na intimidade com o Divino Mestre, mas também na comunhão com os irmãos e irmãs. Criar ao nosso redor relações de confiança e acolhida mantém viva a esperança de um mundo mais justo e solidário.

Celebrando o Mistério Pascal de Cristo, damos graças a Deus pela Eucaristia que nos revigora, nos leva a participar da vitória de Cristo e nos convida a viver com equilíbrio justiça e santidade e não sob o domínio da lei.

5- ORIENTAÇÕES GERAIS

  1. Uma boa preparação da celebração inicia com um momento de concentração e oração, com abertura sincera à ação do Espírito Santo. É ele que move os corações e realiza as maravilhas do Pai em nossa vida.
  1. Antes da celebração, evitar a correria e agitação da equipe litúrgica e a equipe de canto, com afinação de instrumentos e testes de microfone. Tudo isso deve ser feito antes. A equipe de canto não deve ficar fazendo apresentação de cantos para entretenimento da assembléia. É importante criar um clima de silêncio.
  1. A acolhida afetiva e fraterna de todas as pessoas que chegarem para tomar parte na celebração comunitária;
  1. A proclamação das leituras e das orações seja feita com “unção e solenidade”, pois são diálogo e encontro com o Senhor, santo e justo, que nos imanta com sua ternura e santidade.
  1. Dia 06 de março com a Quarta-feira de Cinzas inicia na Igreja a Quaresma como tempo de preparação para a Páscoa e também a Campanha da Fraternidade.

 

6- MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos cantar a liturgia e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com cada domingo do Tempo Comum, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são do 8º Domingo do Tempo Comum, é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado. Jamais os cantos devem ser escolhidos para satisfazer o ego de um grupo ou de um movimento ou de uma pastoral. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

O canto de abertura é a primeira expressão de alegria dos irmãos e irmãs que se reencontram. A liturgia é celebrada por um povo, o povo de Deus; cada um e todos participam à medida que desempenham sua função. Compete à assembléia manifestar alegrias pelo canto de abertura. A equipe de canto poderá ajudar a sustentar o canto do povo. Escolher um canto que introduza a assembléia no mistério da liturgia do tempo e da festa. Não se deve escolher cantos de cunho individualista para satisfazer a espiritualidade de movimentos.

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembléia, inseri-la no mistério celebrado (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico III da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados nos CD: Liturgia VI e CD: Cantos de Abertura e Comunhão.

O canto de abertura não é para acolher o presidente da celebração nem os ministros. Ele tem a finalidade de congregar a assembléia para participar da ação litúrgica. Nunca dizer vamos acolher o presidente da celebração e seus ministros com o canto de abertura.

  1. Canto de abertura. Deus, meu protetor e Salvador (Salmo 17/18,19-20). Para o canto de abertura, sugerimos este Salmo. “O Senhor é meu apoio, da angústia me livrou”, CD: Liturgia VI, melodia da faixa 8, exceto o refrão e estrofes do Salmo 31/30.
  1. Ato penitencial. Sugerimos que o Ato Penitencial seja a fórmula 5 da página 394 do Missal Romano, onde contemplamos o Senhor como a plenitude da verdade e da graça.
  1. Hino de louvor. “Glória a Deus nas alturas…” Vejam o CD Tríduo Pascal I e II e também no CD Festas Litúrgicas, Partes fixas do Ordinário da Missa do Hinário Litúrgico III da CNBB e também a versão da CNBB musicado por Irmã Miria e outros compositores.

 

O Hino de Louvor, na versão original e mais antiga, é um hino cristológico, isto é, voltado para Cristo, que exprime o significado do amor do Pai agindo no Filho. O louvor, o bendito, a glória e a adoração ao Pai (primeira parte do Hino de Louvor) se desdobram no trabalho do Filho Único: tirar o pecado do mundo, exprimindo e imprimindo na história humana a compaixão do Pai. Lembremo-nos: o Hino de Louvor não se confunde com a “doxologia menor” (Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo). O Hino de Louvor encontra-se no Missal Romano em prosa ou nas publicações da CNBB versificado numa versão que facilita o canto da assembléia.

  1. Salmo responsorial 91/92. O justo cresce como a palmeira e ainda na velhice produz fruto. “Como é bom agradecermos ao Senhor”, CD: Liturgia XI – Ano C, melodia igual à faixa 11 ou CD: Cantando os Salmos – Ano C, v.2, melodia da faixa 4.

 

O salmo responsorial, ao mesmo tempo resposta da Igreja e proclamação da Palavra, tomou importância na reforma litúrgica. Trata-se do texto colocado após a primeira leitura bíblica e retirado da própria Sagrada Escritura, isto é, um salmo. Por ser Palavra de Deus deve ser cantado da Mesa da Palavra.

  1. Aclamação ao Evangelho. “Palavra viva e eficaz de Deus” (Hebreus 4,12) “Aleluia… Como astros do mundo, vocês resplandeçam”, CD: Liturgia XI, melodia da faixa 2. O canto de aclamação ao evangelho acompanha os versos que estão no Lecionário Dominical, página 906.

Diferente do salmo responsorial é a aclamação ao Evangelho. É conveniente que um breve silêncio seja feito após o salmo, enquanto o diácono (ou presbítero) se prepara para anunciar o santo Evangelho. A seguir todos se colocam de pé, em sinal de disponibilidade para o seguimento da mensagem de vida, e cantem o “Aleluia e a aclamação” que se caracteriza por ser um canto processional, isto é, acompanha a procissão com o Evangeliário.

  1. Apresentação dos dons. Neste domingo seria oportuno entoar o Salmo 115, “A vós, Senhor apresentamos estes dons: o pão e o vinho, aleluia!”, CD: Liturgia VI, melodia da faixa 9.

 

  1. O canto do Santo. Um lembrete importante: para o canto do Santo, se for o caso, sempre anunciá-lo antes do diálogo inicial da Oração Eucarística. Nunca quando o presidente da celebração termina o Prefácio convidando a cantar. Se o (a) comentarista comunica neste momento o número do canto no livro, quebra todo o ritmo e a beleza da ligação imediata do Prefácio como o canto do Santo.

 

  1. Canto de comunhão. “Celebrar Deus pelo bem que nos faz…” (Salmo 12,6) “Com a trave no olho, queremos limpar os olhos dos outros e os outros julgar”, CD: Liturgia XI, melodia da faixa 10, exceto o refrão. Sem dúvida, este é o canto de comunhão mais adequado pra esse domingo.

O fato de a Antífona da Comunhão, em geral, retomar um texto do Evangelho do dia revela a profunda unidade entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia, Eucarística e evidencia que a participação na Ceia do Senhor, mediante a Comunhão, implica um compromisso de realizar, no dia-a-dia da vida, aquela mesma entrega do Corpo e do Sangue de Cristo, oferecidos uma vez por todas (Hebreus 7,27).

Forma de executar o Canto de Comunhão. A forma que a tradição litúrgica oferece para o Canto de Comunhão, a de um refrão tirado do texto do Evangelho do dia alternado por versos de um Salmo apropriado ou um trecho do Novo Testamento, foi mantida no 3º fascículo do Hinário Litúrgico da CNBB, nos cantos de Comunhão dos Anos A, B e C.

7- ESPAÇO CELEBRATIVO

  1. O lugar onde celebramos a Eucaristia é Casa da Igreja e antes disso é Casa da Palavra, pois é esta que, sacramentalmente, forja a comunidade dos cristãos. De certo modo, a construção de pedra é imagem da construção viva, da qual fala Paulo em suas cartas, que a Igreja, Corpo de Cristo. Neste sentido, é lugar de interlocução, de diálogo a partir das escrituras que são interpretadas pelos ritos. Assim, toda a celebração litúrgica é Palavra de Deus dirigida ao povo reunido. Mas também é resposta deste povo aos apelos que lhe são expressos.
  1. A respeito do uso do data-show nas celebrações, a CNBB orienta que deve ser colocado somente os cantos, produções de imagens para a homilia e avisos. Não se deve colocar as leituras bíblicas e nem a Oração Eucarística para que não seja ofuscado as duas peças principais do espaço celebrativo que é o altar da ceia e a mesa da Palavra ou ambão.
  1. AÇÃO RITUAL

Fazer uma acolhida bem fraterna e amorosa de cada pessoa que chega para a celebração e, realizar os vários serviços com cordialidade (= de coração). A equipe de acolhida ou a equipe de liturgia pode estar às portas do templo, recebendo as pessoas sem alarde, cumprimentando-as e, desde já, inserindo-as no contexto celebrativo daquele dia, enunciando um versículo bíblico em consonância com o mistério celebrado. Para este domingo, pode ser: “Bem vindo, bem vinda! Você que é membro do Corpo de Cristo”.

Fazer com grande esmero, os ritos iniciais, vivenciando o seu sentido de reunir a comunidade de irmãos, formando o corpo vivo do Senhor.

Ritos Iniciais

  1. A celebração tem início com a reunião da comunidade cristã (IGMR 27.47). O canto de abertura começa tendo em conta essa realidade eclesial, e vai introduzir a assembléia no Mistério celebrado.
  1. É importante que não se diga nenhuma palavra antes da saudação: nem “Bom dia” ou “Boa noite”, nem comentários ou introduções! Bom dia e boa noite não é saudação litúrgica. Primeiro devemos saudar a Trindade.
  1. Após a saudação presidencial e antes do sentido litúrgico, o animador, ou o próprio presidente convida a todos para a recordação da vida. Trazemos a vida na celebração porque acreditamos que Deus age na história. Trazer os fatos de maneira orante e não como noticiário.
  1. Sugerimos na saudação inicial, a fórmula “c”, do Missal Romano que são as palavras conforme a 2Ts 3,5:

O Senhor, que encaminha os nossos corações para o amor de Deus e a constância de Cristo, esteja sempre convosco.

  1. Em seguida, dar o sentido litúrgico da celebração. O Missal deixa claro que o sentido litúrgico da celebração pode ser feito pelo presidente, pelo diácono um leigo/a devidamente preparado (Missal Romano página 390). Em seguida propõe o sentido litúrgico:

 

Domingo da lei escrita no coração. Na Eucaristia, memorial da vitória da vida sobre a morte, reconhecemos em Cristo a árvore boa que nos dá os melhores frutos de salvação. O Senhor nos ensina a ver com seus olhos nossas fragilidades e a evidenciar as coisas boas do nosso coração.   

  1. O Ato Penitencial na missa pode ser concebido como uma atitude de confiança e esperança na misericórdia do Senhor que socorre os seus na sua fraqueza e limitação. O amor visceral do Senhor (misericórdia, segundo Lucas 1,78) nos alcança. Essa é a experiência da piedade divina. Lembrando-nos que piedade é a tradução de “pietas” que em latim traduz o grego “eleos”, palavra conservada ainda no Kyrie “eleison”, significando o carinho de Deus para com suas criaturas e a confiança dessas em sossegar-se em seu aconchego.
  1. Para o Ato penitencial sugerimos a fórmula 5 da página 394 do Missal Romano que apresenta Jesus Cristo como plenitude da verdade e da graça e veio pra fazer de nós um povo santo.
  1. Cada Domingo é Páscoa semanal, o Hino de Louvor (Glória) deve ser cantado solenemente por toda a assembléia. Deve-se estar atento na escolha dos cantos para o momento do glória. Ideal seria cantar o texto mesmo, tal como nos foi transmitido desde a antiguidade, que se encontra no Missal Romano, ou, pelo menos, o mesmo texto em linguagem mais adaptada para o nosso meio e também a versão da CNBB musicado por Irmã Miria e outros compositores (como já existe!). Evitem-se, portanto, os “glórinhas” trinitários! O hino de louvor (glória) não de caráter Trinitário e sim Cristológico.
  1. Na Oração do Dia suplicamos a Deus que a Igreja atue alegre e tranqüila e peçamos a “paz” para melhor lhe servirmos, para não estarmos divididos entre dois senhores.

Rito da Palavra

  1. Abrir o rito da Palavra com o refrão inspirado da primeira leitura: “Que arda como brasa tua Palavra nos renove, esta chama que a boca proclama”. Enquanto se entoa o refrão, alguém se dirige ao Ambão e acende o recipiente. Para isto, basta embeber um pouco de algodão em álcool e lançá-lo no recipiente com as brasas acesas.
  1. Em seguida faz-se silêncio e a pessoa que acendeu o recipiente diz: “Vem, ó Deus, falar-nos de tua vida. Põe tua Palavra em nossa boca, para que, ardendo viva, seja por nós proclamada, por nós vivida e pelo povo aprendida!”. Volta a entoar o refrão.

Rito da Eucaristia

  1. Na oração sobre o pão e o vinho, suplicamos a Deus que o alimento da nossa existência humana se torne sacramento da vida eterna.
  1. Sugerimos o Prefácio Comum, V página 432 do Missal Romano. Esse texto canta o dom de Deus e a história da salvação mostrando que Deus criou o homem e a mulher à Sua imagem e lhes confiastes toda a criação. Seguindo essa lógica, cujo embolismo reza: “Vós criastes o universo e dispusestes os dias e as estações. Formastes o homem e a mulher à vossa imagem, e a eles submetestes toda a criação. Libertastes os fiéis do pecado e lhes destes o poder de vos louvar, por Cristo, Senhor nosso”. O grifo no texto identifica aqueles elementos em maior consonância com o Mistério celebrado neste Domingo e que pode ser aproveitado na celebração, ao modo de mistagogia. Usando este prefácio, o presidente deve escolher a I, II ou a III Oração Eucarística. A II admite troca de prefácio. As demais não admitem um prefácio diferente. As demais não podem ter os prefácios substituídos sem grave prejuízo para a unidade teológica e literária da eucologia.
  1. Valorizar o rito da fração do Pão, devidamente acompanhado pela assembléia com o canto profundamente contemplativo e orante do Cordeiro de Deus.
  1. No momento do convite à comunhão, quando se apresenta o Pão consagrado e o cálice com o sangue de Cristo, é muito oportuno o texto bíblico de João 8,12, que é a fórmula “b” do Missal Romano:

“Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”.

  1. “A comunhão realiza mais plenamente o seu aspecto de sinal quando sob as duas espécies. Sob essa forma se manifesta mais perfeitamente o sinal do banquete eucarístico e se exprime de modo mais claro a vontade divina de realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor, assim como a relação entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico no Reino do Pai” (IGMR, nº 240). Quando bem orientada, a comunidade aprende fácil esse rito que é resposta obediente ao mandamento do Senhor “tomai e bebei”.
  1. Distribuir o corpo de Cristo de forma consciente e orante, como um gesto de profundo serviço, expressando nele o próprio Cristo que se dá como servo de todos. Isso vale tanto para quem preside como para seus ajudantes.

 

Ritos Finais

  1. Na oração após a comunhão, suplicamos a Deus que unidos pelo mesmo pão e pelo mesmo cálice, possamos produzir frutos pra a salvação do mundo.
  1. Seria oportuno antes de traçar a bênção, rezar o n. 21 das orações sobre o povo, para que sejamos purificados e que Deus nos inspire verdadeiro arrependimento. Página 534 do Missal Romano:

Ó Deus, purificai os vossos fiéis, inspirando-lhes verdadeiro arrependimento, para que possam trinfar dos maus desejos e comprazer-se sempre em vosso amor. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

  1. As palavras do rito de envio podem estar em consonância como mistério celebrado: O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.

 

9- CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Reino de Deus é um trabalho que se opera em nós, mas que somos convidados a fazer crescer também fora de nós, nos outros. Na medida em que tivermos conhecimento da nossa vocação e na medida em que sentirmos a necessidade de esclarecermos, sempre mais, a nossa visão, estaremos aptos a ser guias, isto é, líderes, condutores de pessoas. Uma vez corrigidos meus erros, estou dando o exemplo e contribuindo pela purificação da realidade. Porque um interior limpo e purificado e iluminado produzirá ações, por sua vez, limpas, purificadas e iluminadas, porque é de dentro do ser humano, diz Cristo, que procede as coisas boas e ruins.

O objetivo da Igreja é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Um abraço fraterno a todos
Pe. Benedito Mazeti

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