Dízimo em tempos de crise

Dízimo em tempos de crise

07/07/2017 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

            A crise econômica é assunto recorrente e, diga-se de passagem, também persistente em noticiários e em nossas conversas cotidianas. Mesmo a previsão de que termine este período difícil para todos dentro de dois anos, não parece ser capaz de tranquilizar uma grande massa, que na atualidade vê-se ameaçada pelo desemprego, quando ainda tem que dar conta de financiamentos  de casa própria a longo prazo, pagamentos de carro, mensalidade escolar, além de necessidades básicas como água, luz, mercado e outras despesas fixas de todo mês.

            Em contraposição a esta consciência, o consumismo parece não baixar. Basta observar o grande fluxo de pessoas nos shoppings, redes de eletro e eletrônicos, supermercados e lazer noturno. O cartão de crédito é o maior facilitador de grandes e pequenas negociações que minam o orçamento pessoal e familiar. São muitos os casos de crise familiar  motivada pelo consumo maior que a renda;  gasta-se muito mais do que se ganha.

            Nossas comunidades paroquiais estão inseridas nessa realidade nacional, como uma missão a cumprir, a evangelização; e são muitos os desafios. Não podemos ser indiferentes ao fato de que a crise nos alcança em cada um dos fiéis que podem ter máxima consciência de sua pertença à Igreja e seus deveres cristãos, mas são, em sua maioria, pessoas comuns sujeitas ao desemprego, ao custo de vida cada vez mais alto e ao consumismo que, em minha opinião, passou do tempo de ser catalogado entre as mais terríveis neuroses do nosso século.

            Ouvindo párocos e coordenadores na Semana do Dízimo, dias 27, 28 e 30 de junho deste ano, constatei que é fato: nossas comunidades paroquiais estão passando pela crise econômica com baixas na arrecadação, seja por eventos e promoções diversas, como também pelo dízimo. Em muitas realidades não vendemos mais como vendíamos em anos anteriores, nossos eventos têm custos altos, muito trabalho para lucros que não compensam a falta que sofremos na devolução do dízimo. Mas como vamos lidar com tudo isso? Quais são as atitudes para amenizar os efeitos da crise na economia de nossas comunidades?

            Dízimo ainda é o meio mais eficiente e justo  para a captação de recursos em nossas comunidades paroquiais. Dízimo é bíblico e por isso é uma atitude de fé. Devemos investir mais na ação evangelizadora, a Palavra de Deus tem sua força e não podemos subestimá-la. Nem todos que estão presentes em nossas celebrações foram devidamente evangelizados, falta muito ainda para uma afetiva e efetiva iniciação à vida cristã. Muitos ainda não contribuem com a comunidade devolvendo sistematicamente o dízimo, pois pensam que é “apenas dinheiro dado a quem pode manter-se de outra forma”.

 Sem a razão da norma (cânone 222, CIC, 1983) e o sentido de corresponsabilidade gerado pela pertença à comunidade, que é fruto do batismo, não temos corações convertidos e abertos à partilha com a comunidade. Assim, evangelizar não é pedir dinheiro, mas é ensinar a todos os fiéis que Deus é bom e providente, e a resposta mais adequada à sua bondade é a partilha livre, consciente e generosa com a comunidade. Na história da salvação todo homem de fé é dizimista, então, todo batizado deve ser fiel na devolução do dízimo.

Em tempos de crise muitos não contribuem porque não administram bem seus rendimentos e não falta apenas para a devolução do dízimo, mas falta para todas as outras necessidades da vida pessoal e familiar. É preciso administrar bem para não faltar o necessário e sempre ter reserva para as possíveis urgências que a vida nos impõe. A boa administração do salário e rendimentos da família exige renúncia ao supérfluo, ao que pode esperar para ser adquirido e às propostas de parcelamentos que parecem facilitar a aquisição de produtos, mas os tornam duas ou três vezes mais caros. O consumismo é um comportamento que precisa ser contido. Promover informação aos fiéis sobre a arte de sedução do mercado e também literalmente ensinar como administrar bem os recursos financeiros ajudará na evangelização e promoção do dízimo para a obra de evangelização em nossas paróquias.

Dízimo é partilha e testemunho da verdadeira fé. Em tempos de crise os pobres são os que mais sofrem com o desemprego e desvalorização dos trabalhos que aceitam para não faltar o “pão nosso de cada dia” às suas famílias. Nossas comunidades devem estar de portas abertas para acolher e promover a vida. O dízimo que devolvemos, sempre por que somos gratos a Deus por sua divina providência, deve ser suficiente para manter o culto, a igreja e suas estruturas, a ação missionária e a caridade para com os mais pobres.  Se nossos dízimos mantêm apenas o culto e as estruturas paroquiais, lembrando que em muitas comunidades nem isso, faltará para a missão e para a caridade.

O dizimista fiel promove a vida em comunidade para si e todos os seus. Deve fazer de tudo para promover também a evangelização além paróquia, diocese e fronteiras e a vida dos mais pobres que batem as nossas portas. Pelo ato de devolver o dízimo pertencemos à comunidade e somos todos missionários e caridosos, em resposta ao amor de Deus Pai e a Jesus Cristo que na cruz entregou-se sem reservas por todos nós.

O mundo pode estar em crise, mas nossa relação com Deus é firme e sólida; Ele é bom e não muda. Existem muitos bons exemplos de pessoas e comunidades que mesmo sujeitos à crise econômica são criativos e fiéis. Devemos estar abertos a aprender com quem faz bem feito e buscar boas referências de paróquias inteiras que fizeram a opção pastoral do dízimo e são bem sucedidas. Enquanto este tempo difícil não termina, a fidelidade na devolução do dízimo tem efeito curativo, pois livra-nos da má administração dos nossos rendimentos e do consumismo. A fidelidade é a resposta a este mundo que se esqueceu de Deus e da sua justiça.

Pe. Rogério Corrêa
Assessor Diocesano da Pastoral do Dízimo