Dois Papas, o filme – Impressões de um padre católico

Dois Papas, o filme – Impressões de um padre católico

12/03/2020 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

Foto: Divulgação/Netflix

Assisti ao filme “Dois Papas” do brasileiro Fernando Meirelles. Confesso que demorei um pouco a decidir por ver, devido às controvérsias midiáticas que estavam em voga acerca do tema e do grau de historicidade do enredo, do argumento do filme ou do tipo da qualidade da ficção. E como eu não sou adepto a me guiar por controvérsias, esperei…. Me impressionou em encontrar uma ficção, como é próprio da maior parte do cinema. Diante disto, percebi como é importante se dispor a aprender com a ficção, porque atrás dela está a criação humana.

No meu caso, sendo um cristão e padre, encontrando-me frente à criatividade humana, é difícil não ver o Criador por trás da criação. Por isso, aprendo com os frutos da criação humana que, nesta ótica, são frutos do Criador. É preciso ser reverente à arte.

Quando eu conversava com uma amiga, minha melhor amiga, por quem eu nutro um grande amor, ela me disse: “Padre, eu assisti os ‘dois papas’. Assista! Eu comecei até a gostar do Papa Bento XVI.” Isto porque ela sempre foi bastante crítica deste papa, o que se constituiu numa grata surpresa. E eu perguntei: “Por quê?” Ela disse: “Porque eu consegui, pelo filme, ver que ele é humano, consegui ver a humanidade dele.”

Esta percepção me deixou, de certo modo, impressionado; e isso me acompanhou até quando fui ver o filme. Ao assistir, dou-me conta que, o que aprendi com esta obra de arte, parece-se com o que já foi defendido pelo grande teólogo Karl Rahner quando defendia que a busca de Deus, o encontro de Deus, para os seres humanos, se dava no próprio encontro do ser humano, ou seja, se quiser ver a Deus, olhe para o ser humano, olhe para a humanidade.

Acompanhando a criatividade desta obra de arte em idealizar um encontro entre dois seres humanos crentes e marcados por um comprometimento global, universal, eu percebi que este encontro demonstrou a humanidade de ambos: a humanidade de Joseph Ratzinger e a humanidade de Jorge Bergoglio. Dois homens que não põem em evidência seus títulos, não era o papa e o cardeal, não aparece no colóquio as patentes, não há simbólicas do poder de ambos, não há formalidades além da pequena ética (etiqueta) e da boa educação. Eram pessoas, homens, procurando entender-se a si mesmos, entender o outro para responder a uma grande missão. Nenhum se “deifica”, mas ambos amam a Deus.

Diante disto, eu pude me emocionar rindo abertamente quando, numa das cenas, Bergoglio fica apressado para que Bento XVI conclua a oração quando iam comer duas pizzas. Este dizia para aquele se não queria adicionar alguma prece e ele diz: “Amém”. Eu ri muito. Mas também chorei imensamente quando o Bergoglio abraça um dos seus amigos que tinha sido preso e torturado pela ditadura militar argentina e, na missa, no momento do “abraço da Paz”, eles se emocionam dando um ao outro o acolhimento do perdão. E percebi que ambos os personagens demonstram a necessidade da mudança, da reforma das instituições, no caso, da reforma da igreja, para a sanidade institucional, para conservar a criatividade e permanecer conectada à Obra Criadora de Deus.

Revesti-me de grande júbilo em ver dois homens crentes e entender que para ser crente o homem não precisa deixar de ser homem, ou seja, só é verdadeiramente crente quem é verdadeiramente humano. Afinal, o Verbo de Deus encarnado revelou Deus à humanidade, e à humanidade a própria humanidade, ou seja, se quisermos ser de Deus temos que ser verdadeiramente humanos e para ser humano é fundamental ser verdadeiramente de Deus.

Então, tenho que concordar que este filme pode ser uma experiência catequética, para fazer com que o ser humano crente, católico, reforce a sua própria humanidade e descubra no encontro com o outro e com as fragilidades dele, as suas próprias fragilidades, como próprias do percurso humano e do percurso do crente.

Ao se tratar de uma ficção, termino em me perder em conjecturas… Ah, se de fato o Papa tivesse comprado uma passagem, ou tentado comprar uma passagem para Lampedusa e sido desacreditado pela atendente a ponto de pedir ajuda ao Guarda Suíço que estava perto de seus aposentos para comprar pela internet esta passagem. Ah, se de fato o Papa e um cardeal comessem pizza no parapeito de uma escadaria tomando refrigerante e conversando sobre a vida.

Ah, se o encontro entre dois homens (o papa e um cardeal) pleiteando a renúncia à condução de seus respectivos ofícios para viver mais livremente, redundasse no aumento do comprometimento e da responsabilidade, mediante o confronto com a misericórdia Divina no sacramento da Confissão. Ah, se um cardeal argentino puxasse o Papa alemão para lhe ensinar uns pequenos iniciais passos de tango e ali terminassem em gargalhadas. Ah, se todo mundo entendesse que quando o Papa se apresentou para a multidão havia ali o Vigário de Cristo denso de humanidade.

Ah! Se fosse… Não sei se foi nem se será. Só sei que é bom. Descobri ainda mais que Deus nos torna mais humanos e enquanto humanos podemos descobrir mais a Deus.

 

Pe. Lisboa Lustosa
Pároco de São João Clímaco, região episcopal Ipiranga, em São Paulo
Professor de Teologia Pastoral na PUC-SP, de Religião e Culturas e Eclesiologia na UNISAL