Ivan Reis

Ivan Reis

10/11/2017 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

“A cada hora morre um jovem negro no Brasil. Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticada por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados” (dados da Anistia Internacional). Como dizer que o negro no Brasil é inserido na sociedade brasileira? Com tantas atrocidades ao negro, à mulher negra: “No Brasil, 61% dos óbitos foram de mulheres negras, que foram as principais vítimas em todas as regiões, à exceção da região Sul. Merece destaque a elevada proporção de óbitos de mulheres negras nas regiões Nordeste (87%), Norte (83%) e Centro-Oeste (68%).” (Dados do IPEA).

Sem planejamento seguimos nossos dias atuais com a violência, genocídio e racismo entre outras coisas. Como também nos últimos anos vimos surgir movimentos negros sociais nas redes sociais e nas comunidades, que antes não se sentiam representadas. Alguns ainda, minoria da sociedade, tardiamente estão tentando reconhecer que no Brasil somos maioria de miscigenados mesmo, ou seja, afrodescendentes, negros/índios.

Os bancos escolares a cada dia muito menos jovens negros frequentam, e cada dia fica mais difícil termos negros nas universidades, por conta da desestrutura educacional e ou falta de estrutura familiar; contudo alguns especialistas na educação diz que já foi pior e hoje mesmo ruim, já melhorou.. Bom eu tenho minhas dúvidas, pois levantamentos mostram que a população branca aumentou seu índice educacional entre jovens e a negra não evoluiu: “Ainda de acordo com o levantamento, 57% dos negros que estão fora da escola não completaram o ensino fundamental. Entre os brancos, o percentual de jovens de 15 a 17 anos fora da escola é de 43%.” Penso que no total ainda é muito ruim, mas a população negra é a que sofre mais com este caos sistematizado.

Quando criança não tinha muito estímulo para ir à escola por conta das hostilidades e violência, nasci e cresci em um bairro tido como pobre em São Paulo, nossos professores, a grande maioria, não tinha muito interesse em nós, negros e favelados, e então éramos tidos como sem futuro. Abracei meu destino, fui pai muito novo, mas nunca deixei de me instruir: estava sempre fazendo um curso aqui e ali até que me veio a vontade de fazer um curso superior. Fiz concurso de bolsa, não existia Prouni em minha época, as faculdades faziam um programa interno de bolsa de estudos que era bem rigoroso. Conclui meus estudos com muita luta. Era o único negro em minha sala, fiz concurso público e hoje sou Professor, trabalho como educador na Fundação CASA.

Vejo que a questão da inserção do negro no mercado de trabalho, na sociedade, independentemente da vontade pública, tem de partir também de uma evolução dos nossos sonhos. Há muito fomos condicionados a termos sonhos restritos e trabalharmos em serviços braçais, porém hoje temos outros meio de formação e de instrução acerca de nossa etnia e posição que ocupamos; lógico que está muito longe do ideal, mas temos de partir de algum ponto. Dentro disso a televisão, as propagandas e seus textos, seus modelos de pessoas e de sociedade, penso que vão se rendendo a um novo público, um público que até aqui não tinha reconhecimento mínimo e não se reconhecia também.

Hoje sou ativista negro e há quase duas décadas de luta, penso que ainda há um “apartheid” estrutural/cultural neste País; ainda não criamos meios que sejam eficazes no combate à miséria, no combate ao uso dos jovens no tráfico de drogas, no combate ao uso de drogas, no combate à violência contra a mulher negra, na instrução e acompanhamento das famílias em situação de risco. Não temos políticas públicas para cuidar da inserção dos negros encarcerados na sociedade, para combater o genocídio que está nas ruas acabando com a juventude negra. Sou educador e vejo um retrocesso estrutural e histórico, talvez nossos filhos e netos não estudarão no futuro. Penso que muito queria aqui dizer da evolução da sociedade na inserção do negro no Brasil, até porque luto por nosso povo todos os dias, muito eu queria aqui elogiar esta nossa “democracia racial”, todavia sejamos realistas, que neste século vinte e um, com tanta tecnologia e evolução aparente, ainda sentimos o cheiro da senzala e arrepios ancestrais em muitos lugares do País.

Ivan dos Reis Miranda
Educador na Fundação CASA
Vice Presidente do Conselho Afro de São José do Rio Preto