Pe. Ronaldo José Miguel

Pe. Ronaldo José Miguel

10/11/2017 0 Por Diocese de São José do Rio Preto

Advento e fim dos tempos

A palavra advento, para os cristãos, significa o tempo da espera ou expectativa pela dupla vinda do Senhor, conforme atesta a Instrução Geral do Missal Romano: “O tempo do Advento possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para a solenidade do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens, e também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos. Por este duplo motivo, o Tempo do Advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa” (IGMR, Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário, n. 39).

Deste modo, fazendo memória da primeira vinda – a encarnação do Verbo, Jesus Cristo, o Filho de Deus, que nasceu em Belém –, aguardamos a sua segunda vinda no fim dos tempos, quando se realizará a plenitude da obra de Deus e a plenitude do homem; ou seja, quando “Deus será tudo em todos. […] Com efeito, é necessário que este ser corruptível revista a incorruptibilidade e que este ser mortal revista a imortalidade” (1Cor 15,28.53).

Portanto, a esperança cristã que a Igreja celebra durante o período do advento e que aponta para o final dos tempos, tem como objeto a vinda do Senhor e está toda ela voltada para a pessoa de Cristo. Não tem sentido considerar as “coisas últimas” senão desde a perspectiva do “Último”, ou melhor, de Jesus como “O Último”, depois do qual não podemos encontrar outro (cf. Mt 11,3; 1Cor 15,45). Jesus Cristo é o acontecimento que nos revela o Pai e, ao mesmo tempo, o único mediador que nos leva a Ele. Assim, a esperança cristã não possui outro objeto senão Deus mesmo, o futuro absoluto e definitivo do homem realizado na pessoa de Jesus Cristo.

O conteúdo da nossa esperança cristã não são os acontecimentos últimos, mas a Última pessoa, isto é, Jesus mesmo. Bem afirmou Von Balthasar, dizendo que “Ele [Deus] é enquanto alcançado, o Céu; enquanto perdido, o inferno; enquanto examinador, o juízo; enquanto purificador, o purgatório… E é tudo isso no modo como Ele se dirigiu ao mundo, ou seja, em seu Filho Jesus Cristo, que é a possibilidade de Revelação de Deus e com isso o resumo de todas as coisas…”.

Entendida deste modo, a plenitude cristã que esperamos é uma plenitude já possuída em Jesus Cristo que se encarnou, morreu, ressuscitou e está a direita do Pai, mas que aguarda a sua realização final na sua segunda vinda, quando venceremos os limites do tempo e do espaço, atingindo o estado de perfeição atravésda incorruptibilidade e a imortalidade na eternidade que é Deus. Como diz Santo Agostinho, “lá [no céu] repousaremos e veremos, veremos e amaremos, amaremos e louvaremos. Isso é o que acontecerá no fim que não terá fim” (A cidade de Deus, 22,30).

O verdadeiro cristão não fica preocupado em saber como será o fim do mundo e de que modo este acontecerá. Pois que o fim já é para nós uma Verdade revelada e antecipada numa pessoa, Jesus Cristo, como atesta o livro do Apocalipse: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Ap 22,13). Assim, o motivo da nossa esperança já é para nós o motivo da nossa alegria proclamada em todas as missas: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus”.

 

Pe. Ronaldo José Miguel
Mestre em Teologia Dogmática
pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

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